Livre-se das enxaquecas

Os estudos mais recentes que nos ajudam a perceber melhor os mecanismos deste tipo de cefaleias

Faz-se sentir num dos lados da cabeça, caracteriza-se por uma dor pulsátil geralmente acompanhada de náuseas, vómitos, intolerância à luz e a alguns cheiros e tem uma fase premonitória indicadora de que a crise está prestes a chegar.

Falamos de enxaqueca, um dos tipos de cefaleia mais comuns que, segundo dados da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, afeta oito a 15 por cento da população dos países ocidentais.

Dentro deste grupo, 15 por cento sofrerá de enxaqueca com áurea, que é acompanhada de sintomas neurológicos transitórios, tais como perturbações exuberantes e passageiras de visão, perda de visão de um dos lados do campo visual, perceção de pontos luminosos, dormência na face e nas mãos ou mesmo paralisia dos membros.

A razão pela qual algumas pessoas são mais suscetíveis a este tipo de dor de cabeça, que chega mesmo a ser incapacitante, continua por desvendar. Contudo, a comunidade científica continua à procura de respostas, como pudemos assistir no encontro anual da Sociedade Europeia de Neurologia, que se realizou no final de maio em Lisboa.

Esta tendência manteve-se, algumas semanas mais tarde, no Congresso Internacional de Cefaleias, em Berlim, onde as enxaquecas voltaram a estar em foco e onde uma das comunicações mais surpreendentes revelou que esta é uma resposta de defesa do organismo.

De acordo com dois professores da Universidade de Nápoles, quem sofre deste tipo de cefaleia desenvolve uma sensibilidade superior a certos estímulos, acionando um sistema de defesa perante alguns perigos externos, o que ajudou os nossos antepassados a sobreviver e que, ainda hoje, afasta essas pessoas de determinados ambientes tóxicos.

Maior suscetibilidade

Esta investigação reforça a ideia, já conhecida, que estes indivíduos são mais suscetíveis a vários estímulos ambientais e do próprio organismo e que isso faz com que as crises possam ser desencadeadas pela ingestão de determinados alimentos, distúrbios de sono, stresse, toma da pílula anticoncecional, menstruação e até menopausa.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Cefaleias, a enxaqueca é duas a três vezes mais prevalente no sexo feminino e sabe-se que está associada a uma combinação de processos a nível cerebral, nomeadamente alterações dos vasos sanguíneos e dos vários nervos que envolvem o cérebro e à libertação de substâncias.

Há também uma predisposição genética: segundo a American Headache Society, aproximadamente 80 por cento das pessoas que sofrem de enxaqueca tem um familiar de primeiro grau com o mesmo problema.

Enxaqueca e menopausa

Uma equipa de neurocientistas dos hospitais das universidades de Turim e de Novara decidiu investigar a razão pela qual algumas mulheres que sofriam de enxaqueca durante o período fértil melhoraram após a menopausa, enquanto outras pioraram.

Descobriram, como revelou Cecilia Condello, a autora principal do estudo, que «a menopausa melhora as enxaquecas nos casos em que há uma forte relação entre a cefaleia e a menstruação durante o período fértil». Nos outros casos não se verificou essa associação. O estudo, apresentado em Lisboa, vai continuar a decorrer, mas a investigadora afirma que as primeiras conclusões podem ser úteis para quem se aproxima da menopausa.

«Será possível desenvolver protocolos terapêuticos à medida das mulheres, de acordo com os seus fatores de risco que podem predizer o seu prognóstico depois da menopausa, escolhendo as estratégias mais agressivas em mulheres com probabilidades de piorar, ou adotando uma postura de aguardar e ver nas que têm probabilidade de melhorar espontaneamente», refere.

Bactérias agravam sintomas

Noutro estudo divulgado na capital portuguesa, uma equipa de investigadores iranianos das universidades de Ciências Médicas de Isfahan e Islâmica de Azad demonstrou que as infeções pela Helicobacter pylori, bactéria responsável por diversas doenças gastroduodenais e que infeta mais de metade da população mundial, contribuem para o agravamento da enxaqueca.

«Mostrámos que, em pacientes que tenham uma infeção ativa pela Helicobacter pylori, a frequência e a severidade da enxaqueca aumenta», afirma Mohammad Saadatnia, neurologista e líder da investigação.

Este especialista recomenda que os doentes com este tipo de cefaleia sejam sujeitos a testes de despistagem da bactéria, pois assim esta «pode ser irradiada com antibióticos para atenuar os seus ataques de forma rápida e eficaz».

Problema crónico?

As enxaquecas podem tornar-se crónicas e esse risco aumenta em situações em que:

- As crises são muito frequentes. O risco cresce proporcionalmente ao número de dores de cabeça no último ano

- Existe excesso de peso. Os obesos têm duas a cinco vezes mais probabilidades de terem enxaquecas

- A pessoa toma demasiados medicamentos para controlar as crises. O risco aumenta quando se ingerem fármacos cinco dias por mês

- Existe uma ingestão excessiva de cafeína que, em alguns casos, agrava a dor de cabeça

- A pessoa ressona ou sofre de apneia do sono, dois fatores que causam distúrbios de sono

- Existe uma doença psiquiátrica e uma vida stressante

Como tratar a enxaqueca

Apesar de ainda não ter cura, existem dois tipos de terapias para a combater:

- Tratamento sintomático

É administrado quando a crise tem início e passa pela toma de analgésicos simples, anti-inflamatórios e triptanos. Cabe ao seu médico indicar-lhe a melhor solução.

- Tratamento profilático

É usado diariamente nos casos em que há crises de enxaqueca frequentes, o tratamento sintomático não produz efeito, e quando as crises são muito incapacitantes. O objetivo é diminuir as crises. Não há medicamentos especificamente desenvolvidos para a profilaxia da enxaqueca, mas alguns anti-hipertensores, antidepressivos e antiepiléticos são utilizados com esse fim, ficando a escolha ao critério do médico assistente.

Texto: Rita Caetano com Cecilia Condello (neurocientista) e Mohammad Saadtnia (neurologista)

artigo do parceiro:

Comentários