Hiperandrogenismo feminino

Quando as hormonas masculinas se manifestam mais do que queremos

O hiperandrogenismo define-se por ser um conjunto de sinais e sintomas que resultam de um nível elevado de androgénios (hormonas
masculinas) no sangue.

Pode também ser decorrente de um
aumento da sensibilidade a estas hormonas nos
órgãos onde actuam. No fundo, trata-se de um
excesso de produção de hormonas masculinas que
potencia determinados sinais desconfortáveis para uma mulher.

Até porque, geralmente,
é um problema exclusivamente feminino visto
que, como refere o endocrinologista Jorge Dores,
«níveis elevados de androgénios no sangue têm
poucas ou nenhumas repercussões no homem». As manifestações e sintomas mais comuns do hiperandrogenismo
são o hirsutismo (excesso de pêlos),
a amenorreia (irregularidades menstruais) e a alopecia
(queda de cabelo).

Na adolescência, a ausência
de menstruação, a oleosidade excessiva do cabelo
e a acne podem ser comuns. Já em mulheres
adultas, o hiperandrogenismo pode ser consequência
da Síndrome dos Ovários Policísticos, cuja
consequente dificuldade em engravidar é a principal
razão para a procura de ajuda especializada.

Qual a sua causa?

Uma das causas mais comuns (80% dos casos) de
hiperandrogenismo é a Síndrome dos Ovários
Policísticos (SOP). Conhecida como um dos distúrbios
endócrinos mais comuns nas mulheres e
sendo a causa mais frequente de infertilidade feminina,
a SOP, na sua forma mais leve, não apresenta
manifestações mas gera uma maior dificuldade em
engravidar e induz a uma maior probabilidade de
aborto espontâneo. As formas mais graves são caracterizadas
por sinais de hiperandrogenismo.
A sua origem é desconhecida, porém, alguns estudos
sugerem uma origem genética influenciada
por factores ambientais.

Ainda assim, nem todos os sinais de hiperandrogenismo
são provocados pela SPO. Falando especificamente
do hirsutismo (excesso de pêlos), as causas
são várias e, como refere o especialista Jorge Dores,
podem estar relacionadas também com uma «resposta
exagerada do folículo piloso (estrutura que dá
origem ao pêlo) a níveis normais de androgénios,
tratando-se de hirsutismo idiopático», ou com a
«ingestão de medicamentos que podem estimular o crescimento dos pêlos (corticosteróides e anabolizantes,
por exemplo)».

De qualquer forma, o especialista
faz questão de referir que, embora muito
raramente, o excesso de pêlos decorrente de hiperandrogenismo
«pode ser a manifestação de uma
doença mais grave, como tumores (benignos ou
malignos) dos ovários ou das glândulas supra-renais».

É grave?

Geralmente não. Se considerarmos um caso de
hiperandrogenismo não associado a problemas de
fertilidade causadas por SPO, a maior complicação
está no próprio desconforto dos sintomas. Aliás, só
se procede a um tratamento específico, e com recurso
a medicação, «se existirem sinais que efectivamente
perturbem a saúde da mulher», refere
Jorge Dores. O índice de gravidade é medido com
base nos sinais clínicos e nas causas.

Como refere o
endocrinologista, «quando o hiperandrogenismo é
grave há sinais francos da acção das hormonas masculinas
na mulher (virilização), como voz grave,
aumento da massa muscular, perda de cabelo da região temporal e aumento do clítoris. Estas situações
são raras e estão geralmente associadas a tumores
dos ovários ou das glândulas supra-renais, órgãos
produtores de androgénios».

Como prevenir?

Sendo um problema de origem essencialmente
genética, não há técnicas de prevenção infalíveis.
Ainda assim, a ligação entre o hiperandrogenismo
e a obesidade está provada e, por isso, é aconselhável
evitar o aumento de peso. Para além disso,
«deverá ter-se algum cuidado com a toma de certos
medicamentos, como esteróides anabolizantes para
aumentar a massa muscular, dado que não são desprovidos
de actividade androgénica».

Como tratar?

A terapêutica recomendada para o hiperandrogenismo
é personalizada e tem por base as causas do
problema, que devem ser avaliadas por um endocrinologista.
O tratamento médico consiste na correcção
hormonal através de medicamentos (contraceptivos
orais, medicação anti-androgénica, glucocorticóides
e/ou metiformina, por exemplo), que deve
funcionar enquanto complemento de tratamentos
estéticos que atenuam os sinais mais desconfortáveis,
como o excesso de pêlos ou a calvície.

De qualquer forma, o especialista Jorge Dores refere
que o tratamento hormonal só é geralmente
levado a cabo «se existirem sinais que perturbem a
saúde da mulher». Para além disso, «sabe-se que
existe uma estreita relação entre o hiperandrogenismo
e a obesidade, havendo uma melhoria das suas
manifestações quando a
mulher perde peso».
Por isso, é aconselhável a
adopção de um plano de
perda de peso, já que «esta
medida é mais benéfica do
que a administração de
qualquer medicamento»,
conclui o especialista.


Veja na página seguinte: Sinais a ter em conta

Sinais a ter em conta

Não ignore os sinais
Podem ser sintomáticos de
um quadro de hiperandrogenismo
e devem justificar
uma consulta médica para
despiste:

- Acne

Excesso de oleosidade da
pele, mais comum na adolescência,
fase em que é
mais intensa e resistente do
que a acne comum.

- Cabelo oleoso

Sintoma mais comum
na adolescência.

- Hirsutismo

Excesso de pêlos ou aparecimento
dos mesmos em
zonas tipicamente masculinas
como rosto, peito e/ou
costas. É menos frequente
em mulheres asiáticas,
africanas e nórdicas.

- Amenorreia

Irregularidades menstruais,
ausências e atrasos frequentes.

- Alopecia

Queda de cabelo precoce,
maioritariamente no topo
da cabeça.


TRATAMENTOS ESTÉTICOS

- Fototerapia para a acne

É realizada com um aparelho que emite uma luz
de alta intensidade que ataca a propionibacterium
acnes, bactéria relacionada com a acne.

- Peeling para remover a acne

Consiste em provocar uma esfoliação superficial da
pele, mediante a utilização de agentes químicos
(ácido glicólico ou ácido salicílico, por exemplo).

- Limpezas de pele para remover acne

Limpeza profunda dos poros, com extracção dos
pontos negros e borbulhas, seguida da desinfecção
e hidratação da pele.

- Fotodepilação para combater o hirsutismo

O objectivo é a destruição progressiva do folículo
piloso através da emissão de um feixe de luz. Pode
ser feita com laser ou com luz pulsada intensa,
consoante o tipo de pêlo.

- Tratamentos capilares para travar a alopecia

Tratamentos feitos em casa com fórmulas
personalizadas, complementados com a aplicação
médica de produtos vasodilatadores através de
mesoterapia. O objectivo é travar a queda capilar
e recuperar os folículos.


Tratamento hormonal versus gravidez

Relativamente ao tratamento
hormonal do excesso
de pêlos, o especialista
Jorge Dores refere que
«quando se inicia o tratamento
com medicamentos,
devem ser cumpridas duas
regras básicas, a paciente
deve ser advertida para
não esperar a melhoria
do hirsutismo em menos
de seis meses, visto que
esta é, aproximadamente,
a
semi-vida dos folículos
pilosos)».

Na sequência disso, «deve-se informar
a paciente e a família
de que a duração da terapêutica
é longa porque a
produção de androgénios
ou o aumento da sua
sensibilidade é persistente.
No entanto, como regra,
os medicamentos correntemente
disponíveis para
o tratamento do hirsutismo
devem ser suspensos
quando se pretende uma
gravidez», refere ainda o especialista.

Texto: Ana Catarina Alberto

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