Gaguez: modificar, facilitar e encarar

Rita Costa, terapeuta da fala, revela-nos o que sabe sobre esta disfunção

Na sequência da recente estreia do filme "O Discurso do Rei", o grande vendedor dos Óscares e que culmina com o discurso do rei George VI, que sofria de gaguez, no início da II Guerra Mundial, não poderia deixar de abordar este tema.

Todos nós temos alturas em que não conseguimos ser fluentes a dizer o que pretendemos, em que nos "engasgamos", em que não encontramos a palavra certa para continuar o raciocínio, sobretudo alturas em que estamos cansados, sob pressão ou quando temos que falar em público…

Para nós, as disfluências surgem como forma de ganhar tempo para formular a nossa mensagem, enquanto que o indivíduo com gaguez sabe o que quer dizer e manifesta disfluências não intencionais. Se pensarmos que a comunicação é a base das relações sociais, o impacto desta patologia na vida de um indivíduo pode ser tão grande que acabe por tornar-se mesmo incapacitante.

Já imaginou como se sentiria se fosse a uma entrevista de emprego (já por si uma situação de stress) e não conseguisse, na recepção, dizer o seu nome? Ou se fosse a um café, quisesse um café mas, por se sentir inseguro com essa palavra e para evitar gaguejar, pedisse leite? E se estivesse perdido e não conseguisse pedir indicações?

Estas pequenas situações têm um enorme impacto na qualidade de vida do indivíduo com gaguez e tornam muitíssimo importante a procura de ajuda.

Gaguejar caracteriza-se por uma diminuição na velocidade do discurso, maior esforço físico e mental no acto de falar e interrupções da transmissão da mensagem. É frequente a repetição de partes da palavra (ex.: pa-pa-pato) ou bloqueios, sobretudo quando as palavras começam pelas fonemas p,t,k,b,d,g, prolongamento de sons, sobretudo no "s" e no "ch" (ex.: ssssaia).

Pode ser visível tensão e esforço no acto de fala. Estas características podem levar, por parte do indivíduo com gaguez, a comportamentos de evitamento (pausas fingindo pensar, substituição de palavras que consideram difíceis, mecanismos de arranque…), emoções negativas, como o medo, e mesmo alterações relacionadas com a resposta do sistema nervoso simpático ao medo e agressão, como por exemplo parar a respiração, aumento da frequência cardíaca, pressão sanguínea, sudação ou piscar de olhos.

Muitas vezes, utiliza-se a metáfora do "iceberg" para tentar explicar o que ocorre na gaguez: na maior parte dos casos a parte visível é muito pequena e é preciso explorar todos os sentimentos negativos subjacentes à gaguez, como sejam a tensão e o medo do insucesso.

Entre os 3 e os 5 anos, cerca de 4 a 5 por cento das crianças gagueja, mas apenas 1 por cento dos casos se mantém. Nesta fase, a gaguez surge como resposta ao desenvolvimento linguístico e facilmente perdura se a criança encontrar modelos com gaguez ou com um discurso acelerado, se as suas disfluências forem valorizadas e rotuladas.

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