Formas diferentes de rastrear a saúde sexual feminina

A realização do exame pélvico continua a dividir opiniões. Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, comenta a posição do Colégio Americano de Internistas

Os médicos internistas norte-americanos têm posto em causa a utilidade clínica do pélvico mas, um pouco por todo o mundo, muitos ginecologistas continuam a enfatizar a sua importância. Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, comenta as considerações clínicas do Colégio Americano de Internistas, desmistificando algumas das crenças que ainda continuam a ser associadas a este meio de diagnóstico:

- Não é preciso realizar o exame pélvico antes de prescrever contracetivos orais

Fernanda Águas está parcialmente de acordo com esta afirmação. «Muitas vezes, o início da contraceção precede a realização do exame ginecológico mas, por outro lado, o pedido de contraceção constitui uma boa oportunidade para a mulher ir ao ginecologista e fazer o exame. Mas, obviamente, queremos ganhá-la para a vigilância e não perdê-la, fazendo uma coisa para a qual ela ainda não está psicologicamente preparada», refere.

- O rastreio de doenças sexualmente transmissíveis pode ser feito recorrendo a testes de urina ou esfregaços vaginais e não requer um exame pélvico

Fernanda Águas está em desacordo com esta posição. «O rastreio da clamídia pode ser feito através de teste de urina mas, em Portugal, não está instituído como rastreio. É feito de forma oportunista, em pessoas que vêm à consulta e querem fazê-lo, mas não como rotina. Quanto a outras situações, de infeção, temos de fazer o exame ginecológico», esclarece a especialista.

- A avaliação está, muitas vezes, indicada em mulheres com sintomas como descarga vaginal, sangramento fora do comum, dor, problemas urinários e disfunção sexual

Fernanda Águas está totalmente de acordo com esta posição do Colégio Americano de Internistas.

- Ao fazer o rastreio do cancro do colo do útero, o exame deve ser limitado à inspeção visual do colo do útero e ao esfregaço para detetar o cancro ou o HPV

Mais uma vez, Fernanda Águas não concorda com a teoria agora defendida nos EUA. «Aqui o que está em causa é o toque bimanual que, à exceção de pessoas muito obesas, nos dá muitos dados sobre as dimensões do útero, alterações dos ovários (como quistos), situações de endometriose e miomas (que podem ser assintomáticos, mas é bom sabermos que estão lá para vigilância futura)», defende.

Exame pélvico versus exame ginecológico

O exame pélvico é uma parte do exame completo (exame ginecológico) normalmente realizado pelos ginecologistas em cada consulta.

O que o exame pélvico integra:

- Observação externa dos genitais.

- Exame com espéculo (instrumento introduzido na vagina para observação das paredes vaginais e colo do útero).

- Toque vaginal bimanual (introdução de dois dedos na vagina e palpação abdominal, que permite avaliar o útero, a bexiga e os ovários em termos de dimensões, dor e por aí fora).

- Citologia do colo do útero (ou exame de Papanicolau), que permite fazer o rastreio do cancro do colo do útero. Não é abrangida pelas recomendações do Colégio Americano de Internistas.

O que o exame ginecológico integra:

- Exame pélvico.

- Exame da mama.

- Ecografia endovaginal, um meio complementar de diagnóstico que, em Portugal, é muitas vezes realizado pelo próprio ginecologista em consultório, quando há indicações.

Texto: Rita Miguel com Fernanda Águas (presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia)

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