Exame pélvico é bom ou mau?

Os médicos internistas americanos põem em causa a sua utilidade clínica mas os ginecologistas continuam a enfatizar a sua importância. Afinal em que ficamos?

Nos Estados Unidos da América, tal como em Portugal, é realizado pelos ginecologistas em todas as consultas, salvo em situações excecionais. Mas, depois de ter revisto a literatura científica publicada em inglês entre 1946 e janeiro de 2014, o Colégio Americano de Médicos de Medicina Interna, American College of Physicians (ACP) no original, emitiu posteriormente linhas de orientação que desaconselham a realização do exame pélvico em mulheres sem sintomas e que não estejam grávidas.

Por sua vez, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), reagiu dizendo que «embora não seja baseado na evidência, o uso do exame pélvico é sustentado pela experiência clínica dos ginecologistas», sublinhando que «continua a acreditar firmemente» no seu valor clínico. Pedimos a opinião de Fernanda Águas, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.

Internistas versus ginecologistas

A análise e as recomendações dos médicos internistas, que do lado de lá do Atlântico também podem proceder ao exame pélvico, não se referem a todas as componentes desse exame. Abrangem o uso do espéculo e o toque vaginal bimanual, excluindo o Papanicolau (usado no rastreio do cancro do colo do útero) e a observação externa dos genitais. Tal como em Portugal, nos EUA, o exame pélvico «é, muitas vezes, realizado sem ser para o rastreio do cancro do colo do útero».

«Muitas mulheres e médicos acreditam que deve integrar a visita anual ao ginecologista», constata ainda o documento. Mas o ACP concluiu que «as evidências atuais mostram que os danos superam quaisquer benefícios demonstrados», pelo que desaconselha a sua realização em mulheres adultas sem sintomas que não estejam grávidas.

Por sua vez, o ACOG reconhece que «nenhuma evidência científica atualmente apoia ou refuta o exame pélvico anual em pacientes assintomáticas de baixo risco», mas enfatiza a sua importância e sugere que médico e paciente partilhem a decisão «com base nas necessidades individuais, solicitações e preferências» do doente.

O que foi analisado

O exame, concluiu o colégio de internistas, tem baixa exatidão a detetar o cancro do ovário e da vaginose bacteriana. Quanto a outros cancros ginecológicos (que não o do colo do útero), doenças pélvicas inflamatórias e outros problemas ginecológicos benignos, para os quais está indicado, apurou-se que não existem estudos.

Foram também analisados os benefícios do exame ao nível da morbilidade e mortalidade e os danos físicos (infeções do trato urinário, dificuldade ou necessidade frequente em urinar) e psicológicos (medo, ansiedade, embaraço, dor, desconforto e/ou fuga a tratamentos médicos necessários), associados ao exame em si, ao sobrediagnóstico e ao sobretratamento.

Concluiu-se que a sua realização não só não reduz as taxas de mortalidade ou morbilidade, como expõe a mulher a danos desnecessários e evitáveis, e envolve custos desnecessários para o sistema de saúde, como a realização de laparoscopias e laparotomias devido aos «muitos falsos positivos», justificam.

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