Doentes e médicos

Como as (más) relações e comunicações afetam o tratamento e a cura de doenças

O que diz (e o que não diz) ao seu médico interfere na qualidade do serviço prestado. Mas existem pessoas que, por hipocondria, medo ou incúria, exacerbam ou escondem sinais e sintomas que podem ser relevantes para a identificação de uma doença.

Leia como algumas opções que faz, dentro e fora do consultório, são interpretadas por quem cuida de si.

- Ir a uma consulta com um diagnóstico feito pela internet

Há pessoas que, ao mínimo sinal de mau estar, corre para a internet em busca de diagnósticos. Um comportamento que muitos médicos condenam. «[Esse tipo de pessoas] é movido por uma grande ansiedade ou por espírito de independência», exemplifica Manuel Carrageta, cardiologista. «É interessada e tem alguma literacia em saúde», considera, todavia, Maria do Céu Machado, pediatra. Este tipo de comportamento tem um ponto positivo.

«Há uma menor assimetria entre o profissional de saúde e o doente, o que permite, por vezes, um diálogo sobre a doença e a intervenção mais adequado e compreensível pelo doente», analisa a médica. Mas também tem vários aspetos negativos. «Muitos sites não são credíveis, nem sempre têm base científica e fazer esta pesquisa acaba por dificultar o diálogo. O doente [nestas situações] acredita mais no site do que no médico», refere Maria do Céu Machado.

«O doente pode chegar a diagnósticos alarmantes que causam sofrimento desnecessário. A interpretação dos sintomas é perturbada pela reação emocional e pela falta de conhecimentos», acrescenta ainda Manuel Carrageta. Procurar informação na internet pode ser uma boa maneira de se familiarizar com uma determinada patologia mas não substitui, de modo algum, o diagnóstico feito por um profissional especializado.

- Aproveitar uma consulta para esclarecer todas as dúvidas e mais algumas

É uma das críticas que os médicos apontam a muitos portugueses. «É compreensível, uma vez que o paciente deseja otimizar o seu tempo e o seu dinheiro mas, no final, se forem demasiadas perguntas, a utilidade poderá ficar muito diluída», considera, contudo, Luís Gouveia Andrade, médico oftalmologista. «É positivo o diálogo entre o médico e o paciente e o facto de que quem fica esclarecido tende a procurar menos os cuidados de saúde e aceita que não se justificam exames desnecessários», afirma ainda.

«Antes de uma consulta, o paciente deve identificar o que mais o preocupa, as suas maiores dúvidas», considera também. Mas nem tudo é positivo. «Procurar numa mesma consulta percorrer diversas questões não só é impossível como não permite abordar em detalhe os problemas mais recentes», sublinha o especialista. Isto sem esquecer que «o médico é confrontado com a pressão administrativa para ver muitos doentes com tempo limitado», acrescenta ainda Maria do Céu Machado.

- Pedir para prescrever medicamentos que não são da especialidade do médico

Os portugueses são dados ao desenrascanso e pedir para prescrever medicamentos que não são da especialidade do médico é uma prática mais do que comum. «Compreendo plenamente esta atitude. Resulta da dificuldade que os pacientes têm em marcar consulta com o médico de família. Por outro lado, muitas vezes, têm de marcar (e pagar) uma consulta apenas para que possam ter acesso às receitas dos medicamentos de que necessitam», refere Luís Gouveia Andrade.

«Não só não é justo como implica uma menor eficiência de todo o sistema de saúde», considera o oftalmologista. Nessas situações, «pode aproveitar para pedir receita de alguns medicamentos essenciais e cuja continuidade esteja em risco, mas não deve abusar ou desvirtuar o objetivo da consulta, convertendo-a numa simples ação de transcrição de receituário», refere o especialista.

O que os médicos pensam quando os pacientes falham

Alguns especialistas funcionam como autênticos psicólogos para conseguir ler nas entrelinhas dos discursos dos doentes:

- O que os médicos pensam quando não lhe diz a verdade

É mais comum do que se pensa, sobretudo quando os pacientes vão às consultas contrariados. «Muitas vezes, percebe-se que o doente está a mentir ou a omitir dados. Quer parecer bem comportado. É frequente e parece-me muito humano. Contudo, há situações em que ocultar questões ou hábitos que têm grandes implicações na vigilância médica pode impedir que se façam bons diagnósticos», alerta Lisa Vicente, ginecologista e obstetra.

- O que os médicos pensam quando não cumpre o tratamento

É outro dos defeitos dos portugueses. O médico vai querer perceber «as razões que a levam a não cumprir os tratamentos» e «explicar as vantagens e inconvenientes da terapêutica». Nestes casos, conta Manuel Carrageta, cardiologista, «é da maior importância o médico dizer ao paciente que está disponível. Assim, é mais provável que o contacte antes de interromper uma terapêutica», sublinha.

- O que os médicos pensam quando não consegue perguntar nada

Há pessoas que entram num consultório médico com dúvidas e saem de lá com as mesmas interrogações. «A grande desvantagem é que sai da consulta sem colocar as suas próprias dúvidas e, com isso, acaba por não ter uma fonte segura e rigorosa de informação que é o seu próprio médico», aponta Lisa Vicente.

Texto: Vanda Oliveira e Nazaré Tocha com Alcina Rosa (psicóloga clínica), Catarina de Castro Lopes (psicóloga clínica), Lisa Ferreira Vicente (médica especialista em ginecologia/obstetrícia), Luís Gouveia Andrade (médico oftalmologista), Manuel Carrageta (médico cardiologista e presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia), Maria do Céu Machado (médica pediatra), Quintino Aires (psicólogo clínico) e Vítor Rodriges (psicólogo e psicoterapeuta)

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