“Conhece-te a ti mesma” ou os diálogos com a vagina

Sim, é isso mesmo! Hoje quebram-se tabus e falamos de calcinhas molhadas e da sua importância nas nossas vidas.

Já reparou que durante o mês tem descargas vaginais distintas?  Um ciclo menstrual, sem interferência de hormonas artificiais, apresenta um muco vaginal que varia em textura e cor nas suas diferentes fases.

Indicador claro e tangível, o muco vaginal (ou “corrimento”) permite identificar as diferentes fases do ciclo menstrual e os ritmos internos de cada mulher, sendo igualmente útil na deteção de problemas de saúde vaginal ou desequilíbrios hormonais.
Durante um ciclo menstrual, e geralmente pela ordem abaixo, o muco apresenta-se:

- Seco – após a menstruação; praticamente inexistente ou muito pouco e daquele que esfarela na calcinha.

- Pegajoso – branco (ou em alguns casos amarelado) meio pastoso e do tipo que cola.

- Cremoso – esbranquiçado com uma textura idêntica à de um sérum hidratante. Costuma molhar a calcinha e ser sinal de que a ovulação está próxima.

- Clara d’ovo – transparente e com uma consistência elástica. Habitualmente é sinal de ocorrência de ovulação. Aos 20 anos pode durar 5-7dias. Pelos 30, costuma rondar os 2. Se quer engravidar estes são os dias que vai querer aproveitar.

- Seco – caso tenha ovulado e os seus níveis de progesterona estejam normais e cumpram a curva ascendente na fase final de ciclo, voltam os dias secos dias antes da menstruação

- Acastanhado – pode acontecer nos dois ou três dias que seguem a menstruação.

Um bom truque para se aperceber da textura é pegar num pouco de muco e fazê-lo passar entre o seu indicador e polegar para avaliar o seu comportamento durante essa leve fricção.

Vale a pena fazer um registo diário destas alterações. Rapidamente se aperceberá da existência de um padrão durante o ciclo menstrual. Para começar, pode permitir-se um ou dois ciclos só de observação e reduzidos ao seu entendimento mais simples do tipo: cuequinha molhada – estou fértil; cuequinha seca – não estou. Depois comece a prestar maior e melhor atenção, a cada mês, a cada ciclo.

Todas as variações mencionadas acima são normais e decorrem das alterações hormonais do ciclo menstrual. Mas não são únicas. Algumas mulheres experimentam pontualmente um corrimento abundante q.b. e aguado. Este costuma ser indicador de descarga de “limpeza” e pode ocorrer em qualquer fase de ciclo, sendo comum após exercício físico.
Há ainda algumas que acusam um ligeiro sangramento durante a ovulação e que por isso recebem uma clara d’ovo meio rosada.

Sinal de alerta são corrimentos tipo branco-requeijão, cinzento, amarelo ou esverdeado – principalmente se acompanhados de alteração no cheiro, irritação, ardor ou comichão na zona da vulva ou vagina: usualmente indicam situações de saúde que devem ser corrigidas com a maior brevidade.

O controlo do muco vaginal é apenas um dos indicadores a ter em conta quando se opta por métodos naturais de contraceção e planeamento familiar.

Muitas vezes conotados com a Igreja Católica e com abstinência sexual (como se o sexo fosse apenas penetração), estes métodos ganharam má reputação aquando da revolução sexual feminina, perdendo terreno para a contracepção hormonal nas últimas 4 décadas.

Surgem agora estudos recentes que vêm demonstrar o potencial destes métodos: sem efeitos secundários por não interferirem com a saúde hormonal da mulher, servindo tanto para contracepção como concepção, devolvem à mulher o controlo sobre o seu corpo baseado no conhecimento e reconhecimento de sintomatologia física e do foro psico-emocional e, a cereja no topo do bolo, quando aplicados correctamente apresentam uma eficácia idêntica à da toma da pílula (quando, também ela, é tomada convenientemente).

Se dá trabalho? Bem, é um processo de aprendizagem como qualquer outro pelo que exige repetição até se tornar automático.
E, curiosamente, essa que costuma ser apontada como a principal desvantagem dos métodos naturais – o período de aprendizagem e de controlo de marcadores - traduz-se, em bom rigor, em descobertas úteis para o resto da vida: das que potenciam diálogo interno, capacidade de análise e de bio-feedback, permitindo à mulher conhecer o seu corpo, compreender os seus sintomas e fazer a ligação destes com a forma como se cuida a cada ciclo e, por conseguinte, despertando-a para uma política de auto-cuidado cujo barómetro é interno, pessoal e único.

Patricia Lemos

Patrícia Lemos
Hipnoterapeuta e Educadora Menstrual e para a Fertilidade
www.patricia-lemos.com

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