Cana-de-açúcar

As lendas históricas e as propriedades terapêuticas da sacarose

Foi originalmente plantada (domesticada) na Papua Nova Guiné, uma ilha no sudoeste do Oceano Pacífico.

Com a expansão na Polinésia, ocorrida 1.000 anos antes da era cristã, a cana-de-açúcar atravessou o Oceano Índico como uma canoa de carga, atingindo novas paragens. Outra possível origem é o norte da Índia.

Existem referências ao açúcar que datam do ano 500 da nossa era. Mas alguns historiadores afirmam que há 2.500 anos os indianos no Bihar, na zona de Ganges, conseguiram refinar este material grosseiro e transformá-lo em açúcar puro. Na Europa, chegou à Grécia antiga, um pouco depois de Alexandre, o grande. Mas foram os árabes que levaram a cana-de-açúcar para o Norte de África e Sul da Europa.

Os árabes conquistaram os persas no séc. IX, ficaram com o controlo do processo de produção de açúcar e estabeleceram plantações em vários locais de Espanha. Os europeus descobriram o açúcar de cana, durante as cruzadas nos séc. XI e XII, propagando o seu comércio e uso. No séc. XV, com o descobrimento da América e das Índias Orientais, a expansão do açúcar de cana teve um grande avanço. Foi Cristóvão Colombo, na sua segunda viagem, que levou a cana para a América, começando o seu plantio em 1494.

A cana-de-açúcar foi introduzida na ilha da Madeira em 1425, por ordem do Infante D. Henrique. As primeiras estacas vieram da Sicília. Como a terra era muito difícil de trabalhar e não existia muita mão de obra, vieram muitos escravos de África. Mas foi nos séc. XV e XVI que a indústria do açúcar madeirense se desenvolveu e este passou a ser comercializado nos mercados europeus. No séc. XVII, a produção de açúcar baixou devido a doenças dos canaviais e ao elevado preço que este açúcar tinha, comparado com o produzido no Brasil.

Atualmente, a produção da cana está limitada a alguns agricultores da Calheta e serve para o fabrico artesanal de aguardente, bolos e mel de cana. No Brasil, a plantação iniciou-se em São Vicente em 1522, com canas trazidas da Ilha da Madeira por Martim Afonso de Sousa e, depois, passou para Pernambuco em 1533.

Enquanto a Europa alargava o mercado para o açúcar refinado, Barbados, em 1660, colonizada pelos ingleses, era o principal produtor, que depois foi para outra colónia, a Jamaica (1800), passando no fim para Cuba em meado do séc. XIX (com base no contrabando de escravos). Com o fim da União Soviética, Cuba deixou de ter um mercado estável e esta cultura tem perdido terreno para o Brasil que é hoje o principal produtor do mundo. Vários países da África Austral, como a África do Sul, Moçambique e a ilhas Maurícias, são também grandes produtores.

Aspetos agrícolas

A sacarose extraída da cana é o alimento que mais se vende no mundo, muito superior ao trigo. No ano 500 da era pré-cristã, os persas cultivavam a cana-de-açúcar no Vale do Índo e talvez tenham sido os primeiros a esmagar a cana para obter sumo, que depois era concentrado por meio da fervura. No final do séc. XVII, tinham refinado este processo, produzindo um torrão quase branco.

No séc. XVIII, cientistas e especialistas em cruzamentos de plantas, extraíram sacarose de raízes de beterraba e criaram cultivares de beterrabas com mais açúcar. Na sequência deste desenvolvimento do açúcar de beterraba, foi criada a primeira refinaria na Prússia, em 1801. Depois, a segunda na Rússia em 1802, seguindo-se a Áustria, em 1803.

Histórias e lendas

Em 1490, quando os muçulmanos estavam a ser expulsos da Península Ibérica, Cristóvão Colombo transportava rebentos de cana para Hispaniola, área que abrangia o Haiti e a Republica Dominicana, enquanto que os portugueses plantavam cana-de-açúcar na ilha da Madeira, junto a terrenos de vinha. Em 1518, existiam em Hispaniola grandes plantações de açúcar e, nesse ano, os espanhóis começaram a recrutar mão de obra africana para trabalhar nos campos da América colonizada.

Umas décadas mais tarde foram os portugueses a incrementar o comércio de escravos para o Brasil. Neste negócio, obtiveram mais êxito que os espanhóis na produção de açúcar. No século seguinte foram os ingleses (Barbados e Jamaica), os franceses (Guadalupe, Martinica e Santo Domingo) e os holandeses a apoderarem-se dos torrões ibéricos e a ficarem com o poder do açúcar.

A cultura da cana-de-açúcar está associada ao comércio de escravos africanos, que continuou até 1850. No Brasil, foram introduzidos muitos escravos africanos (estima-se que entre um a dois milhões), levados pelos portugueses. Sendo uma cultura muito proveitosa existiam muitos terrenos, que exigiam muita mão de obra. Os regimes de trabalho escravo eram muito forçados e na altura das colheitas chegavam a trabalhar 18 horas diárias.

Curiosidades

A cana-de-açúcar é utilizada desde o séc. XIX para extração de açúcar. Foi Franz Karl Achard, cientista alemão, que extraiu da raiz 6% de açúcar. O açúcar refinado servia de moeda de troca na Escandinávia quando os venezianos se apoderaram do seu comércio (já eram os maiores comerciantes de especiarias). Alguns torrões produzidos pelos persas (sal branco) eram vendidos em Veneza por preços astronómicos. Mais tarde, perderam o controlo de mercado e o negócio passou para o Norte da Europa. O açúcar tem sido o grande responsável pela obesidade, diabetes, cancro e doenças do coração.

Utilizações (mais) comuns

Antes da utilização do açúcar refinado, utilizava-se mel, feito pelas abelhas. A cana-de-açúcar e a beterraba sacarina contêm entre 99% e 96% de sacarose, sendo a maior parte refinada para obter açúcar branco. Este alimento não tem proteínas, vitaminas, fibras nem minerais. Só contém calorias. No Brasil, os campos de açúcar estão em grande expansão (ocupando terrenos da floresta da Amazónia) para a elaboração de açúcar e etanol (álcool), que serve de combustível, substituindo a gasolina.

No século XX, o consumo de açúcar chegou aos 50 quilos por pessoa por ano. Mas desde os anos da década de 1980 que o açúcar tem diminuído. No Canadá, por exemplo, chegou aos 20 kg por pessoa/ano na última década, devido também aos inúmeros estudos que alertam para os perigos do consumo excessivo deste alimento.

Texto: Pedro Rau (engenheiro frutícola)

artigo do parceiro:

Comentários