Cozinha tradicional: equilíbrio alimentar?

O nutricionista Rodrigo Abreu esclarece-nos sobre a melhor forma de conciliar um regime alimentar equilibrado sem prescindir da cozinha de sabor intemporal. Na prática, há que usar de bom senso, procurando aquilo que os alimentos guardam de melhor.

Há hoje um certo apelo à recuperação de hábitos e pratos tradicionais. São, em muitos casos, confeções “pesadas” onde impera a gordura animal, um factor que vai entroncar, por exemplo, num dos principais problemas de saúde pública: os elevados níveis de colesterol. Como introduzir na nossa dieta esta cozinha sem quebrar o equilíbrio alimentar?
A cozinha tradicional portuguesa tem algumas características que podem representar riscos para a saúde, mas tem também características benéficas – o consumo regular de verduras e hortaliças (através das sopas, por exemplo), a predominância do peixe sobre a carne, as gorduras vegetais como principal fonte de gordura, etc. O objetivo deve ser conciliar tudo aquilo que a cozinha tradicional portuguesa tem de bom com as possibilidades actuais – a grande variedade de alimentos e ingredientes, os aparelhos de cozinha modernos que permitem cozinhar de forma mais saudável, a proliferação de receitas saudáveis na internet ou em livros, etc.

Ao apelarmos à gastronomia tradicional não estaremos a falar de uma cozinha desadequada aos ritmos de vida atual, mais sedentário? 
O mais importante é que cada pessoa aprenda a comer, de modo a adequar as suas escolhas alimentares às suas necessidades e estilo de vida. Se aprendermos a cozinhar com menos gordura ou soubermos qual a proporção que devemos comer de cada grupo de alimentos, será mais fácil fazer uma alimentação com prazer, variada e saudável. Aprender a comer é a melhor forma de fornecer ao corpo tudo aquilo que necessitamos para nos mantermos saudáveis conciliando as preocupações nutricionais com a nossa tradição gastronómica.

Por outro lado, perdemos o hábito da ingestão regular de vegetais. Como podemos contrariar de forma prática e funcional esta tendência?
Falávamos há pouco da necessidade de conciliar os aspetos positivos da alimentação tradicional e atual. Hoje temos disponível uma grande variedade de legumes (frescos, já lavados e arranjados ou ultra-congelados), que podemos comer crus ou cozidos (de preferência a vapor, para que conservem mais nutrientes). Dispomos, também, de aparelhos de cozinha modernos que nos cortam, cozinham e trituram legumes, tornando mais fácil e rápida a tarefa de preparar uma sopa. E se procurarmos na internet receitas de legumes, encontraremos seguramente várias do nosso agrado. Com tantas opções, a ideia é conciliar aquilo que mais gostamos e que nos dá mais jeito de modo a adoptar hábitos alimentares mais saudáveis.

Em termos de composição de um prato principal como devem ser as proporções de vegetais, proteína, hidratos de carbono?
Naturalmente, há variações nas necessidades de cada pessoa. Mas uma boa referência será servir metade do prato com verduras (cruas ou cozidas), dispor de uma porção de proteínas (carne, peixe ou ovos) e acrescentar alguns hidratos de carbono (arroz, massa ou batata). Podemos também substituir as proteínas animais ou os hidratos de carbono por leguminosas (como o feijão, grão ou ervilhas), um grupo de alimentos muito presente na nossa gastronomia tradicional. Com estes cuidados, será possível fazer escolhas mais equilibradas, mantendo o prazer de saborear alguns dos nossos pratos típicos… sem esquecer que deve haver um espaço para aquelas exceções mais calóricas!

Rodrigo Abreu (nutricionista)

artigo do parceiro:

Comentários