Violações em massa e tiros nos genitais. Médico congolês denuncia a violação como arma de guerra

A violação é uma "arma barata e eficaz", que destrói as mulheres e as sociedades, e que continua a causar alguma indiferença. As palavras são do ginecologista congolês Denis Mukwege, incansável porta-voz das vítimas de violência sexual que publicou em outubro a sua autobiografia.

Congolese gynecologist Denis Mukwege poses in Paris on October 24, 2016. / AFP PHOTO / JOEL SAGET

créditos: AFP

"Traçamos linhas vermelhas contra o uso de armas químicas, biológicas e nucleares. Hoje, devemos traçar uma linha vermelha contra a violação como arma de guerra", diz o médico de 61 anos, em entrevista à agência de notícias France Presse.

Conhecido como "o homem que cura as mulheres", título de um documentário sobre o seu trabalho, este médico cirurgião fundou em 1999 um hospital especializado em Panzi, na República Democrática do Congo. Nessa instituição, atende mulheres violadas nos conflitos que assolam o leste do país há mais de 20 anos.

Violações metódicas, tiros nos genitais, introdução de objetos e armas... Mulheres de povoações inteiras são violadas numa só noite. Denis Mukwege presencia de perto o que chama "abismos de horror". "Nas zonas em conflito, as batalhas são travadas nos corpos das mulheres", explica. "Quando se desencadeia uma guerra, não há fé, nem lei. Quem sofre são as mulheres e as crianças", comenta o médico.

Nos últimos meses, este ginecologista e ativista, que diz dormir muito pouco, reuniu em livro as suas lembranças - as mais felizes, mas também as tristes, muitas marcadas pelos conflitos armados.

A obra, "Plaidoyer por la vie", ("Apelo à vida"), foi escrito para "dizer o que pensa" e falar sobre o seu país, "esse" onde "ninguém se preocupa com as mulheres".

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Filho de um pastor, Denis Mukwege descobriu a sua vocação quando tinha oito anos, ao acompanhar o pai numa visita a uma criança que estava à beira da morte. "Um dia serei um muganga", disse, na altura, referindo-se em dialeto local às "batas brancas" usadas pelos médicos.

"Hoje trato vítimas de violência sexual, algo que jamais teria acontecido antes de atender a minha primeira paciente", conta este homem casado, pai de cinco filhos, que durante a sua carreira operou milhares de mulheres.

A violação tornou-se um cancro

Inicialmente o seu hospital recebia mais dez mulheres por dia, mas com "a redução das zonas de conflito" esse número diminuiu. "Este ano recebemos seis ou sete", recorda. Agora, o que o preocupa é também a chegada cada vez mais regular de um número crescente de crianças com menos de cinco anos vítimas de violência. "As vítimas já não vêm só de zonas de conflito, mas também de áreas consideradas tranquilas", relata. A violação "propagou-se" na sociedade como um cancro. "É a consequência da indiferença geral", avalia.

Mas, "se unirmos as nossas forças" podemos criar "uma linha vermelha", denunciando a situação das mulheres sírias "violadas nas prisões", ou das "yazidis vendidas" na Internet, denuncia o médico.

Nos últimos anos, Denis Mukwege intensificou a sua luta em instâncias internacionais e recebeu vários reconhecimentos, como o Prémio Sakharov em 2014. No seu país, a atenção internacional que recebeu não é vista com bons olhos. Sob ameaça, escapou à morte em várias ocasiões e vive com proteção permanente. "As vítimas estão condenadas à eternidade... E os seus executores?", questiona, pedindo "um Tribunal Penal Internacional para o Congo" para julgar "todos estes crimes que continuam impunes".

Denis Mukwege, que consta na lista das pessoas mais influentes de 2016 da revista Time, não quer envolver-se na política. "Este não é um combate para conquistar poder. É um combate para conquistar a liberdade e a justiça", resumiu.

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artigo do parceiro: Nuno Noronha

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