Remédio Santo: Esquema de burla era do conhecimento da indústria farmacêutica

São esquemas comuns na indústria farmacêutica, disse um dos arguidos no processo
5 de março de 2014 - 16h53



Um dos dois alegados líderes do processo "Remédio Santo" revelou hoje em tribunal que o esquema de uso fraudulento de receitas médicas para burlar o Serviço Nacional de Saúde (SNS) era do conhecimento da indústria farmacêutica.



"São métodos dos quais se fala e são conversa dentro da indústria farmacêutica. São esquemas comuns na indústria farmacêutica", respondeu Rui Peixoto, um dos 18 arguidos acusados de lesar o SNS em quatro milhões de euros, ao procurador do Ministério Público durante a terceira sessão do julgamento que decorre no Tribunal de Monsanto, em Lisboa.



O alegado líder do grupo do Norte, que à data dos factos era chefe regional de uma das empresas do grupo Bial, explicou que, depois de levantados nas farmácias, os medicamentos, que constavam de uma lista, ou eram destruídos, ou entravam novamente no circuito normal de comercialização nacional, ou eram entregues a armazenistas/grossistas que depois os exportavam através de um circuito paralelo.



Rui Peixoto frisou que os medicamentos por si angariados diretamente ou através de outros arguidos (delegados de informação médica) - com base em receitas forjadas -, eram depois vendidos a um farmacêutico e exportador de medicamentos, também arguido no processo.



O arguido acrescentou que, para o alegado esquema fraudulento, só interessavam medicamentos que eram comparticipados pelo Estado, "no mínimo, 65 a 75%".



Rui Peixoto já tinha explicado, na semana passada, que o suposto esquema começou em 2010 e que se prolongou até 2012, acrescentando que Luís Basile - único arguido em prisão preventiva - era o médico que lhe passava as receitas. No total, só este clínico é acusado de prescrever receitas no valor de 1,7 milhões de euros.



Segundo a acusação, dois grupos - o grupo do Norte e o grupo Centro/Sul - terão alegadamente levado a cabo uma fraude que passava pela obtenção, com a conivência de médicos, de receitas passadas em nome de utentes do SNS que beneficiavam da prescrição de medicamentos que tinham elevadas comparticipações do Estado (entre os 69 e os 100 por cento).

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