Quando ir ao hospital é sinal de felicidade

Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde

7 de abril de 2014 - 10h01

O hospital nem sempre é um lugar de má memória. Pode significar a
felicidade do nascimento de uma criança ou o renascer para a vida. Numa
época em que se discute a descida da natalidade, há casais que continuam
a querer contrariar as estatísticas e não escondem a felicidade de
serem pais.

O azul dos olhos de Rita Antunes, 35 anos, brilha mais
forte quando fala do nascimento do pequeno Tiago. Pronta para abandonar
o Centro Hospitalar de Leiria, a jovem mãe garante que foi uma
felicidade ter de ir para o hospital,

"Quando as águas rebentaram
fomos para o hospital e sabia que ia ser o momento. Houve um misto de
alegria e ansiedade. Há sempre um receio de saber se está tudo bem com o
bebé", contou.

Tiago nasceu com recurso a ventosas. Rita Antunes confessou à agência Lusa que "o que fica do parte é o pós-parto".

"Ele
é tão fofinho. A pele é tão macia. Ser mãe é uma sensação que nem sei
explicar. Estar no hospital para o ter nos braços é uma felicidade
enorme", acrescentou.

O pai, Pedro Antunes, assistiu ao parto e
viveu todas as "emoções fortes" com "algum nervosismo e receio" à
mistura. Passados três dias ainda receia pegar no Tiago. "Ele é tão
pequeno. Parece tão frágil".

"Passar estes dias no hospital foi
uma felicidade. O hospital também foi fantástico e é ótimo ter a
oportunidade de ter o pai sempre com a mãe e com o bebé".

No ano
passado, realizaram-se 1.814 partos no Centro Hospitalar de Leiria, dos
quais nasceram 1.827 bebés. Um número que diminuiu em relação a 2012,
quando se registaram 1.927 nascimentos.

Rita Antunes admite que
ter um filho num momento de crise não é uma decisão fácil, mas garante
que Tiago fazia "parte do projecto de vida" e que não quis adiar mais o
sonho. "Nunca é o momento certo, mas quando se quer...".

Agostinho
Viana entrou no hospital morto e saiu de lá vivo. "No relatório ficou
escrito 'morte súbita interrompida', tendo sido dado 90 por cento
morto", conta à Lusa.

Desportista desde pequeno, pedalar
quilómetros fazia parte da sua rotina. No dia 3 de Novembro de 2013, fez
um percurso mais curto com um dos companheiros de sempre e caiu
inanimado à porta de casa.

"Tive sorte porque um casal ia a passar
e socorreu-me. Entretanto, passou uma pessoa que sabia de primeiros
socorros e iniciou as massagens cardíacas".

O INEM chegou e a
reanimação não foi bem sucedida. Agostinho Viana entrou no hospital sem
respirar, devido a um enfarte do miocárdio. A insistência dos médicos
"ressuscitou-o". Como não se recorda bem do que se passou, a mulher,
Margarida, ajuda no relato.

"Esteve cinco dias em coma induzido.
Quando acordou pediu as calças para ir trabalhar. Não fazia ideia do que
me tinha acontecido. Apesar de toda a desgraça foi uma felicidade ir ao
hospital, porque foi entrar morto e sair vivo. Só tenho de dar graças à
assistência que me prestaram".

O cardiologista João Morais está habituado a lidar com situações de limite. "A
nossa felicidade é a possibilidade de as pessoas terem situações
graves, mas saírem do hospital com a informação de que podem retomar a
sua vida, com confiança. Não está curado, mas está óptimo, tendo alguns
cuidados. Essa é a felicidade da cardiologia", disse à Lusa.

João
Morais revelou ainda que é o "ataque cardíaco", como é vulgarmente
denominado o enfarte do miocárdio, que "mais preocupa" os
cardiologistas. No entanto, o médico reconhece que existe já uma
"evolução notável hospitalar".

"Há dez anos poucos eram os
doentes que sobreviviam numa situação dramática [ataque cardíaco],
porque nem tínhamos recursos. Hoje, a esmagadora maioria das situações
tem um desfecho perfeitamente feliz", conta.

Atualmente, o enfarte
do miocárdio tem "uma mortalidade menor do que cinco por cento, quando
os doentes (mesmo com 80 e 90 anos) chegam atempadamente ao hospital",
reforçou João Morais.

Um dos avisos que deixa é para não se ignorar os sinais de possíveis acidentes vasculares cerebrais ou ataques cardíacos.

"Temos
um problema que nos distingue dos nórdicos: a nossa população não é
educada e isso não depende do sistema de saúde. O nórdico sabe que se
tiver uma dor no peito não espera dez minutos. O português vai tomar as
pastilhas do vizinho, liga para o filho, vai deitar-se para ver se
passa... Conseguimos resolver grandemente a parte técnica, mas ainda não
conseguimos resolver a educação do público".

João Morais
acrescentou que "há casos em que a pessoa teve um enfarte do miocárdio e
está cinco horas à espera, com pulseira verde, porque já se sente bem e
não tem dor". "Horas depois é que se descobre que teve um enfarte e isso é terrível", alertou.

Segundo o especialista, "a proximidade com o sistema de saúde" iria permitir que se fizesse a prevenção. "O
doente frequentemente subvaloriza as suas queixas. Só valoriza quando
dói mesmo a sério. Mas se ele estiver próximo do sistema, vai valorizar e
vai queixar-se porque sabe onde se queixar", acrescentou.

Lusa

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