Produtos naturais antes da cirurgia oncológica podem ser fatais

Alguns produtos podem também fazer aumentar o tempo de anestesia ou da hemorragia
11 de junho de 2013 - 09h56
O Observatório de Interações Planta– Medicamento (OIPM) alertou hoje que a toma de alguns produtos naturais pelos doentes oncológicos antes da cirurgia pode causar “acidentes graves” e até fatais durante a intervenção cirúrgica.
“As misturas que os doentes oncológicos fazem e que têm causado situações graves de saúde em Portugal e em outros países” é o tema da última semana da campanha “Aprender Saúde entre as Plantas e os Medicamentos”, do observatório da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.
“Os acidentes em cirurgia são dos mais graves e podem ser fatais, quando se consumiu antecipadamente alguns tipos de produtos naturais”, porque aumentam a metabolização, mas também porque podem bloquear proteínas transportadoras, por exemplo, de anestésicos ao cérebro, referiu o observatório coordenado por Maria Graça Campos.
Alguns produtos podem também fazer aumentar o tempo de anestesia, o tempo de hemorragia, provocar dificuldades de coagulação, alterações na sedação, pressão arterial e “a rejeição de órgãos por toma nas semanas anteriores de plantas que sejam, por exemplo, indutoras das enzimas necessárias para a metabolização de medicamentos, como a ciclosporina”.
No último ano, o OIPM elaborou tabelas de interações Planta– Medicamento em perioperatório, que estão em fase de validação pela comunidade científica internacional para depois serem divulgadas em Portugal de forma a evitar estas ocorrências.
“O número de pessoas com cancro aumenta de ano para ano e o de produtos naturais que anunciam o milagre da cura também”, disse à agência Lusa Graça Campos, que também lidera o grupo de investigação do Projeto “IciPlant – Interações entre Citostáticos e Plantas”, que decorre desde 2009 entre a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra e o Instituto Português de Oncologia de Coimbra.
A equipa tem acompanhado doentes a analisado produtos levados pelos pacientes, alguns dos quais estavam contaminados com substâncias tóxicas, acrescentou.
“Na prática o que acontece é que se pode reduzir o efeito do medicamento se for diminuída a absorção ou a distribuição. Há redução na absorção sempre que conjuntamente com o medicamento se consomem, sementes (linho, psílio, chia) algas ou fibras”, exemplificou a especialista.
Plantas com atividade diurética, como alfavaca-de-cobra, alcachofra, aipo, dente-de-leão e cavalinha, também reduzem efeito do medicamento devido ao aumento da excreção.
Já plantas como a erva de São João (hipericão), ginseng americano (especialmente os seus metabolitos libertados no intestino), alcachofra, cardo mariano e o “dan shen” aumentam a metabolização, diminuindo a dose disponível do medicamento.
“A redução na dose disponível do medicamento conduz a uma ineficácia do tratamento, o que pode levar à potencial proliferação do processo tumoral”, explicou o observatório.
Por outro lado, plantas como o alcaçuz, alho fresco, aloé, bagas de Goji, cardo mariano, castanheiro-da-índia, chá verde, “dong quai”, gingko, ginseng asiático, hidraste, kava-kava, mangostão, propólis, extrato de sementes de uvas, sumo de toranja e valeriana impedem a eliminação do medicamento no tempo programado e necessário no organismo para exercer a sua ação terapêutica.
Lusa
artigo do parceiro: Nuno de Noronha

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