Políticas de saúde penalizam sistematicamente áreas menos desenvolvidas

As políticas de saúde tendem a marginalizar a diversidade territorial e penalizam sistematicamente as áreas menos desenvolvidas, conclui um estudo hoje divulgado pela Universidade de Aveiro.

Entre 2012 e 2013, foram entrevistados cerca de quatro dezenas de personalidades dos partidos do arco da governação que têm ou tiveram cargos no Ministério da Saúde e representantes de outras instituições com capacidade decisória ao nível das políticas de saúde, onde se incluem responsáveis de entidades direta ou indiretamente ligadas à Administração Central e Regional.

A investigação conduzida por Gonçalo Santinha, do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro (UA), procurou saber se as decisões tomadas no âmbito das políticas da saúde levam em consideração a dimensão territorial, concluindo que “predomina uma perspetiva redutora e fragmentada da relação saúde/território, com decisões de caráter político e setorial, fortemente centralizadas e verticalizadas”.

“Os resultados alcançados mostram que o debate sobre as potencialidades, a conceção e a operacionalização de políticas de saúde, levando em consideração a dimensão territorial, encontra-se em grande medida por fazer”, observa Gonçalo Santinha.

Segundo o investigador, o caráter essencialmente político e setorial das decisões, “dificulta a adequada identificação de soluções concretas sobre uma visão conjunta da distribuição dos serviços, o que não permite tirar partido de contextos particulares de interação e de ação coletiva que os territórios proporcionam à escala local e regional”.

“A investigação realizada no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da UA sublinha que os mecanismos decisórios “ encontram-se fortemente centralizados e verticalizados dentro da redoma setorial, o que fomenta o predomínio de medidas reativas e impede o desenvolvimento de visões estratégicas de base territorial para a obtenção de ganhos em saúde”, conclui.

“Não se observa uma visão estratégica e de conjunto que alie a ideia de combater as situações problemáticas, como as disparidades de acesso a cuidados de saúde, a uma lógica de valorização territorial, como poderia ser a aposta na saúde, enquanto suporte de dinamização económica de determinados territórios”, aponta.

Outra conclusão do estudo é que existe “uma visão predominantemente centrada nos cuidados de saúde, por parte de quem atua diretamente no setor”, um cenário que, “aliado aos poucos recursos financeiros e reduzidas competências no domínio da saúde, por parte das outras instituições, conduz a que a integração de ações com reflexos na saúde decorra, em grande medida, do voluntarismo e do empenho das lideranças”.

artigo do parceiro: Nuno Noronha

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