O país dos smartphones quer combater a nomofobia

Cerca de 70% dos 50 milhões de sul-coreanos têm um smartphone, a taxa mais alta do mundo
26 de junho de 2013 - 10h34



A Coreia do Sul, país de origem da Samsung e um dos líderes mundiais do mercado de smartphones, está orgulhosa do sucesso no setor de tecnologia de ponta, mas as autoridades governamentais revelam alguma preocupação com a crescente dependência das pessoas em relação às ferramentas do mundo digital.



"São escravos sem cérebro", sentencia Kim Nam-Hee, um dos especialistas que tenta sensibilizar os estudantes sul-coreanos sobre os perigos dos telefones inteligentes, que viciam crianças cada vez mais novas.



Um estudo coreano mostra que quase 20% dos jovens estão "viciados" nos seus smartphones. Os sintomas são: ansiedade ou depressão quando não podem ter os aparelhos na mão, tentativas frustradas de diminuir o tempo gasto com o telemóvel e sensação de felicidade quando se está a utilizar o mesmo.



"Sentimos a necessidade urgente de fazer um amplo esforço face ao perigo do vício digital, principalmente devido à popularidade dos telefones inteligentes", concorda o ministério da Ciência, num relatório divulgado em junho passado, escreve a agência France Presse.



O documento sugere uma parceria dos ministérios da Saúde e da Educação com as escolas, para organizarem cursos para prevenir a dependência da internet e acampamentos de férias para "desintoxicar" os alunos viciados.



O país asiático promove há muitos anos a tecnologia digital como um fator chave para o crescimento da capital, Seul, conhecida como "a cidade mais conectada do planeta".



Cerca de 70% dos 50 milhões de sul-coreanos têm um smartphone, a taxa mais alta do mundo, indica a empresa de pesquisa eMarket.



Segundo dados do governo, mais de 80% dos estudantes sul-coreanos com idades entre 12 e 19 anos tinham um smarthphone em 2012, o dobro do índice de 2011. Além disso, aproximadamente 40% dos proprietários desses aparelhos passam mais de três horas por dia no Twitter, à conversa ou a jogar, apesar de os professores apreenderem os telemóveis antes do início das aulas.



O termo Nomofobia surgiu recentemente para explicar a dependência do telemóvel ou o medo de não estar conectado à internet. A palavra deriva do inglês "No Mobile".



Bebés viciados



Os adolescentes não são os únicos afetados e as ações do governo também incluem os alunos mais novos e até crianças com poucos anos de vida.



"Muitas mães deixam os seus bebés brincarem com is seus smartphones durante horas para ficarem tranquilas em casa. Acho que isso é perigoso", diz Lee Jung-Hun, psiquiatra da Universidade Católica de Daegu.



Kwon Jang-Hee, um ex-professor que lidera uma associação de luta contra a dependência digital, viaja pelo país desde 2005 para informar e alertar crianças e pais sobre o perigo de um estilo de vida em que se investe tempo demais na tecnologia digital.



"O nosso tema preferido são os smarthphones", diz o ex-professor, já que os pais têm menos controlo sobre os telemóveis do que sobre os computadores.



Park Sung-Hee, que participou num dos seminários de Kwon, espera conseguir que os seus filhos gastem menos tempo com o telemóvel. "À noite, quando vou aos quartos para ver se dormem, vejo a luz dos telefones ligada debaixo dos lençóis", relata.



Tecnologia proibida



Numa recente apresentação para uma turma de crianças de 10 anos, Kim Nam-Hee, que trabalha com Kwon, explicou que as escolas de Silicon Valley, na Califórnia, Estados Unidos, apostam num enfoque menos tecnológico, mesmo sendo esta uma zona predominante industrializada e onde os alunos são filhos de pais que trabalham no Yahoo! ou no Google, por exemplo.



"Enquanto vocês se transformam em escravos sem cérebro dos smartphones e das suas aplicações, a elite americana, que criou essas ferramentas, não deixa que os seus próprios filhos as usem", argumenta Kim.



"Se usarem demasiado os smartphones, sem necessidade de exercitar o cérebro, no fim das contas vão perder a capacidade de criar algo tão brilhante e inovador como o iPhone", explicou. "Essa é a ironia dessa situação", completou.



SAPO Saúde com AFP
artigo do parceiro: Nuno Noronha

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