Não há dendríticas no IPO porque terapia é experimental

As crianças com cancro tratadas no IPO de Lisboa não recebem células dendríticas por ser um tratamento experimental e faltar fundamentação científica, segundo a diretora do serviço de pediatra da unidade, que denuncia “redes de negócio” paralelas à medicina convencional.
créditos: AFP/Alexander KHUDOTEPLY

“É importante dizer que aquelas terapêuticas que não fazemos – nomeadamente as células dendríticas –, não as fazemos por falta de fundamentação científica e por não haver qualquer indicação para serem feitas”, disse Filomena Pereira.

A especialista do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, que dirige um serviço que acolhe anualmente cerca de 160 novas crianças com cancro, das quais perto de 30 acabam por morrer, sublinhou que esta opção não tem qualquer razão económica.

“Não tivemos qualquer constrangimento, corte, redução ou recusa em nenhum tipo de terapêutica”, frisou.

Filomena Pereira lamenta toda a confusão que se segue aos anúncios nas redes sociais de campanhas para a ida de crianças com cancro até clínicas onde são administradas as células dendríticas.

Alguns estudos indicam que as células dendríticas – que atuam ao nível do sistema imunitário e são usadas em tratamentos ainda experimentais – “têm alguns efeitos que mais não são do que prolongar alguns meses a vida de alguns doentes com determinado tipo de tumores, nomeadamente da próstata e alguns tipos de tumores cerebrais”.

Segundo a especialista, não há qualquer indicação para a aplicação de dendríticas em pediatria e, dentro das células dendríticas, "é importante fazer a diferenciação entre o que é investigação séria e o que é negócio”.

Para Filomena Pereira, “há um centro europeu e um nos Estados Unidos onde está a ser feita investigação séria sobre a utilização de células dendríticas e, depois, há as redes de negócios montadas, por exemplo, na Alemanha”.

“É bizarro que, na clínica tão anunciada por aí fora, os doentes [daquele país] não possam ser tratados, porque a clínica não tem autorização para tratar os doentes alemães”, sublinhou.

Questionada sobre quem, na sua opinião, ganha com esse “negócio”, a especialista enumerou: “Ganham os do transporte, os do alojamento, os tradutores, as coisas paralelas, como as chamadas alimentações saudáveis”.

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