Médicos de família estão mal informados sobre respostas ao cancro hereditário

Teste preditivo permite aferir a probabilidade de uma pessoa desenvolver determinado tipo de cancro
21 de maio de 2013 - 16h59



Uma associação que apoia portadores de genes para o cancro hereditário alertou hoje para o desconhecimento de alguns médicos de família sobre os testes preditivos e sobre os locais onde se realizam, não fazendo o devido encaminhamento dos doentes.



Esta é a principal preocupação da EVITA – Associação de Apoio a Portadores nos Genes relacionados com Cancro Hereditário, que vai ser transmitida na quarta-feira aos deputados da Comissão Parlamentar de Saúde.



A maioria das mensagens que esta associação recebe é sobre o desconhecimento geral quanto à possibilidade de se fazer o teste preditivo - teste que permite aferir a probabilidade de uma pessoa desenvolver determinado tipo de cancro.



“Muitas vezes, os médicos de família não estão bem informados sobre os sítios onde se pode fazer e, apesar de a história de família ser conhecida, não se dá seguimento ao caso, são as pessoas que pedem para fazer o teste", diz Tamara Milagre, presidente e co-fundadora da associação. "Há casos em que o próprio médico não sabe para onde deve encaminhar”, afirmou.



Tendo como base a necessidade da consciencialização e informação da sociedade em Portugal, a EVITA vai apresentar várias propostas, entre as quais a de apostar numa melhor formação dos profissionais de saúde e a de introduzir um dia do cancro hereditário, para criar uma oportunidade de se falar mais no assunto.



Discriminação



Outra grande preocupação é a eventual discriminação, a nível laboral e das seguradoras, de um portador de mutação genética.



“Há pessoas que se recusam a fazer o teste enquanto não tiverem a vida regularizada. No inquérito para fazer um seguro, para compra de casa, por exemplo, se a pessoa admitir ser portadora de mutação, já não consegue fazer o seguro de saúde. Da mesma forma que a entidade patronal vai sempre escolher contratar alguém sem essa predisposição”, denunciou Tamara Milagre, lamentando que estas pessoas se vejam obrigadas a omitir os factos para não serem penalizadas.



A EVITA defende também a criação de centros acreditados para acompanhar estes casos, e a melhoria dos que já existem, com a criação de equipas multidisciplinares, com ginecologista, oncologista e psicólogo.



Tamara Milagre sublinha a importância do psicólogo, pelo peso que tem a mutação genética numa família, envolvendo vários elementos. “Deparamo-nos com um grande problema: há pessoas que se culpam imenso de ter passado o gene para os filhos”, acrescentou.



A EVITA pugna ainda pela criação de uma base de dados nacional de cancro hereditário, para centralizar todos os casos reais, porque, neste momento, só há percentagens, não há números exatos.



“Calcula-se que 5% a 10% de todos os cancros colorretal, de mama e ovário sejam hereditários. Mas estes dados já têm algum tempo e não há números reais, porque muitos possíveis portadores não chegam a saber que o são por falta de encaminhamento”, afirma.



Tamara Milagre dá um exemplo do que pode ser feito perante um teste preditivo positivo para cancro da mama: pode ser feita uma vigilância apertada com exames periódicos (o cancro hereditário acontece muitas vezes em idade jovem), pode ser feita uma quimioprevenção, que baixa o risco em 50%, ou cirurgias preventivas, que é a redução máxima do risco.



“O risco após uma cirurgia não chega a ser nulo, porque ficam sempre células, mas baixa para entre 2% a 5%, o que é um risco abaixo da população em geral (5% a 10%)”.



Tamara Milagre alerta que a mutação do gene BRCA (responsável pelo cancro da mama) pode passar por via hereditária para um filho do sexo masculino, aumentando-lhe, nesse caso, o risco de cancro da próstata ou melanoma, embora em níveis inferiores ao da mama nas mulheres.



Os portadores de uma mutação têm 50% de probabilidade de a passar para a geração seguinte, pelo que é fundamental ter atenção à história familiar: se existe em várias gerações, do mesmo lado da família, o mesmo tipo de cancro, em idades jovens.



Lusa
artigo do parceiro: Nuno Noronha

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