Hospital de Loures recebe média de seis casos por mês de crianças vítimas de maus tratos

Agressões físicas e psicológicas são transversais a todas as classes sociais, diz especialista


O Hospital de Loures recebeu 60 casos de crianças vítimas de maus tratos em cerca de nove meses de funcionamento, segundo dados revelados pelo responsável de pediatria, que admite que esta é apenas “uma ponta do icebergue”.

Em declarações à agência Lusa, o pediatra Paulo Oom refere que 70 por cento dos casos de maus tratos que chegaram às urgências do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, correspondem a maus tratos físicos.

“A grande maioria são maus tratos físicos, alguns são psicológicos e um número mais reduzido corresponde a abuso sexual”, relata.

Segundo os casos registados desde março, os maus tratos físicos ocorreram geralmente em casa e o agressor é, na maior parte deles, o pai, a mãe ou algum elemento da família mais próxima.

O Hospital de Loures teve já algumas crianças que ficaram internadas na sequência de lesões provocadas pelos maus tratos, como traumatismos cranianos, traumatismo do rim (na sequência de um pontapé ou pancada com algum objeto) ou feridas extensas.

“São muitos casos. É um hospital novo, mas que já tem história a este nível e é já um sinal do que pode continuar a acontecer. Até porque me parece que será só a ponta do icebergue”, comenta Paulo Oom, adivinhando outros casos que não chegam às urgências.

Alguns desses casos desconhecidos em meio hospitalar não serão situações de maus tratos físicos com consequências tão graves ou são casos em que as crianças não são levadas ao hospital por omissão consciente.

Aliás, o diretor do departamento de pediatria do Hospital de Loures refere que muitas das crianças chegam às urgências levadas pelos professores da escola, que notam as situações de maus tratos.

Na semana passada, uma dirigente da Sociedade Portuguesa de Pediatria assumia que os maus tratos físicos e a negligência a crianças estão a aumentar com as dificuldades das famílias, voltando a ver-se situações nos hospitais que não surgiam há 20 ou 30 anos.

Paulo Oom diz que ainda não é possível obter um perfil que tipifique as famílias em que ocorrem os maus tratos físicos, mas admite que sejam mais frequentes nas de nível socioeconómico mais baixo.

“Mas não é um exclusivo. Temos casos de famílias de classe média ou média mais alta. Casos em que há um fator adicional de stress familiar, como casos de desemprego ou um divórcio mais complicado”, exemplificou.

O Hospital de Loures tem um núcleo de apoio à criança e jovem em risco que é avisado sempre que surgem maus tratos. Depois de uma avaliação à situação, a unidade de saúde decide contactar as comissões de proteção de menores ou o tribunal.

“Temos a preocupação de apenas internar as crianças que necessitem por motivo clínico ou por estarem em risco”, explicou Paulo Oom, adiantando que são procurados centros de acolhimento temporário quando o agressor da criança pertence à casa ou à família nuclear.

13 de dezembro de 2012

@Lusa


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