Greve de enfermeiros no IPO do Porto com adesão de 100% no internamento

Greve reflete o “descontentamento” gerado pela “grave carência” destes profissionais

05 de agosto - 14h46

A greve dos enfermeiros do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto regista hoje uma adesão de 100% no internamento, segundo fonte sindical, refletindo o “descontentamento” gerado pela “grave carência” destes profissionais e consequente “sobrecarga” de horários.

“Esta greve é o reflexo do descontentamento dos enfermeiros - não só do IPO, porque esta situação vive-se nos hospitais da região do Porto e em todo o país - quanto à grave carência de enfermeiros existente nos serviços hospitalares”, afirmou a presidente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), Fátima Monteiro, em declarações aos jornalistas durante uma concentração de profissionais junto ao IPO.

Segundo a dirigente do SEP, "a falta de profissionais é particularmente sentida nos internamentos dos serviços de medicina e de cirurgia", em que se acumulam “horas e horas em débito aos enfermeiros, que trabalham 12 e 18 horas seguidas sem terem os descansos compensatórios, o que os leva à exaustão”.

Já no bloco operatório o problema “não é tão sentido” e “não se sente esta sobrecarga de horários”, mas a dirigente sindical admitiu que tenha havido adiamento de cirurgias.

Contactada pela agência Lusa, a administração do IPO do Porto remeteu para o Ministério da Saúde a divulgação de dados relativos à adesão à greve dos enfermeiros, que decorre durante a manhã e tarde de hoje.

De acordo com a responsável do SEP, existem cerca de 900 enfermeiros no IPO, sendo que, no último ano, saíram cerca de 30 profissionais e “só foi autorizada a entrada de 10”.

Globalmente, disse Fátima Monteiro, “faltam cerca de 125 mil enfermeiros nas instituições de saúde em Portugal”.

“É incrível que o Governo invista na formação de profissionais altamente qualificados e, depois, não os admita e estes vão a custo zero para o estrangeiro”, considerou, apontando como “responsáveis” por esta situação o Governo e o Ministério da Saúde.

Segundo a sindicalista, “os conselhos de administração [das instituições hospitalares] sentem esta dificuldade, mas referem que pedem contratos de substituição à tutela para licenças de maternidade e outros e estes demoram seis meses a um ano, já quando o trabalhador regressa, e o serviço não comporta esta situação”.

Salientando que “quem paga isto tudo são os trabalhadores, que ficam sem folgas e têm trabalho extraordinário que não é pago”, Fátima Monteiro afirma que a “boa vontade” da classe “chegou ao limite”: “A tutela tem que ter um processo célere de contratação de enfermeiros para que esta situação não se verifique, porque o que está em causa são os cuidados que se prestam aos doentes e a segurança dos profissionais”, sustenta.

A dirigente sindical diz que os atuais ritmos de trabalho dos enfermeiros são inaceitáveis “até em defesa do utente e do Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, sendo que, “no caso do IPO, os doentes são especiais e requerem muito mais atenção do ponto de vista físico e psicológico”, pelo que “os enfermeiros com ritmos aumentados de trabalho estão muito mais suscetíveis a cometer algumas falhas”.

É que, recorda, o próprio aumento da carga de horário semanal das 35 para as 40 horas “já é uma sobrecarga demasiada, com a OMS [Organização Mundial de Saúde] a dizer que os profissionais de enfermagem não devem trabalhar mais do que 35 horas, quando há colegas que trabalham 70 horas por semana ou mais”.

Para o sindicato, a não-destruição do SNS implica que se motive os profissionais de saúde “remunerando-os devidamente”, porque se trata de “mão-de-obra altamente qualificada e necessária para o bom funcionamento das instituições”.

De acordo com Fátima Monteiro, na última reunião mantida com o SEP, o ministério disse que iria “tentar que o processo [de contratação de enfermeiros] fosse mais célere, mas a verdade é que este problema é mais sentido nas alturas de férias e, até agora, nada foi feito”.

Presente na concentração frente ao IPO, Mónica Silva, enfermeira no serviço de Medicina daquela instituição há 16 anos, disse à Lusa que o atual estado dos profissionais é de “exaustão total”: “Fazem-se [turnos das] manhãs /tardes, das 08:00 às 21:30 da noite, manhãs/noites, tardes/noites e noites/manhãs”, assegurou, afirmando que frequentemente só se “folga ao 15.º dia”, não havendo “tempo para a família, para os amigos ou para ter vida própria”.

“Os colegas reformados e os que emigram não são substituídos e depois são os atestados de longa duração, as gravidezes de risco que tendem a aumentar e os acidentes de trabalho….isto leva ao aumento do risco de cometermos erros, o que na nossa profissão é muito grave, porque podemos matar alguém”, sustentou.

Por Lusa

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