Formação de professores de língua gestual está "aquém do desejável", lamenta associação

Comunidade falante de LGP é composta por cerca de 30.000 surdos
22 de abril de 2013 - 10h57



A Associação Portuguesa de Surdos criticou hoje a formação dos professores de Língua Gestual Portuguesa(LGP), considerando-a "aquém do desejável", e defendeu que a lei que consolida a educação bilingue não está a ser bem aplicada.



Em declarações à agência Lusa a propósito do Dia Nacional da Educação de Surdos, que se assinala na terça-feira, o presidente da Associação Portuguesa de Surdos (APS), Jorge Rodrigues, afirmou que a lei 3/2008 (que consolida a educação bilingue) não está a ser bem aplicada no que diz respeito à concentração de alunos surdos e à necessidade de garantir a competência em LGP de todos os professores surdos.



Jorge Rodrigues defende ainda que os intérpretes deveriam ser sujeitos a uma avaliação periódica, por profissionais idóneos.



“O que se pretende é garantir a qualidade da formação de docentes e intérpretes de LGP, criar a profissionalização para o ensino dos docentes de LGP e o respetivo grupo de docência que lhes permita a prossecução da carreira”, declarou.



Em entrevista à agência Lusa, o presidente da APS falou sobre a história da linguagem gestual, as necessidades dos docentes e intérpretes e dos alunos surdos.



Falta de escolas especializadas



Jorge Rodrigues explicou que não existem em Portugal escolas exclusivas para surdos, mas sim unidades escolares com turmas exclusivamente ou em parte compostas por surdos.



“Nenhuma escola tem curso de interpretação em LGP. Os intérpretes estão desde 1998/99 obrigados a ser formados por instituições do Ensino Superior, que têm sido até à data as Escolas Superiores de Educação de Setúbal, Coimbra e Porto”, adiantou.



O presidente da APS disse à Lusa que, ao contrário do que se possa pensar, a percentagem de intérpretes filhos de pais surdos é mínima, sendo que a maioria nunca teve qualquer contacto com surdos antes de optar por aquela formação.



“Além de serem pessoas que antes da licenciatura de três anos não adquiriram quaisquer conhecimentos em LGP, são profissionais que, na sua maioria, também não se preocupam em frequentar a comunidade surda para desenvolver competências em LGP”, disse.



Apesar de estar previsto na lei, nem sempre os docentes de LGP das escolas de referência para a educação bilingue de alunos surdos lecionam também a LGP como segunda língua à população escolar.



Segundo o responsável, a comunidade falante nativa de LGP em Portugal é composta por cerca de 30.000 surdos, estimando-se que o número de intérpretes no país ronde os 150.



Sobre o Dia Nacional da Educação de Surdos, que vai ser assinalado com um concurso de curtas-metragens subordinado ao tema “Surdos e ouvintes na mesma escola, como é?”, o presidente referiu que a mensagem dirige-se sobretudo a quem detém responsabilidade sobre a educação de surdos em Portugal.



“Defendemos que a lei 3/2008 deve ser cumprida, em particular no que diz respeito aos professores que ensinam surdos. Queremos lembrar que é fundamental que eles sejam competentes em LGP para que os seus alunos aprendam de facto os conteúdos curriculares”, concluiu.



Lusa
artigo do parceiro: Nuno Noronha

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