Falta de fármaco para hepatite C é "genocídio de colarinho branco"

Tratamento tem uma taxa de cura superior a 90% e é o único eficaz para todos os genótipos da infeção
12 de junho de 2014 - 17h00



Mais de cem doentes graves aguardam pela aprovação da utilização do novo medicamento contra a Hepatite C, uma espera que lhes pode valer a vida e que já classificam como um “genocídio de colarinho branco”.



Esta informação foi revelada numa conferência de imprensa promovida pela SOS Hepatites, na qual estiveram presentes vários doentes que deram o seu testemunho e o filho de uma mulher com um fígado cirrótico à espera para transplantação, cujo estado de saúde grave em que se encontra já não lhe permite sequer andar.



Esta doente tem um pedido de autorização de utilização especial (AUE) feito há mais de um mês, mas o medicamento ainda não foi disponibilizado.



Para o filho, está a ser praticado um “genocídio de colarinho branco contra doentes com Hepatite C, que não têm acesso ao tratamento”, uma afirmação que teve imediata anuência dos doentes presentes na sala.



A SOS Hepatites considera tratar-se de um “legítimo direito de acesso à saúde” que está a ser negado aos doentes, com a justificação do elevado preço deste novo fármaco – Sofosbuvir –, que tem uma taxa de cura superior a 90% e é o único eficaz para todos os genótipos da infeção e que pode ser usado pré e pós transplante.



Emília Rodrigues, dirigente da SOS Hepatites, recusa esta justificação, alegando que as complicações decorrentes do não tratamento destes casos ou de um tratamento feito tarde demais são muito mais onerosos para o Estado.



O fármaco atualmente em análise pelo Infarmed custa cerca de 48 mil euros para três meses de tratamento, estimando-se que a doença custe anualmente 70 milhões de euros.



O bastonário da Ordem dos Médicos, que se associou ao grupo de doentes, afirma que a “dimensão da despesa é inferior à referida”.



“Deveríamos estar a tratar de forma imediata mais de cem doentes, que são os mais graves e não podem esperar”, considerou José Manuel Silva, sublinhando que estão em causa entre cinco e dez milhões de euros e que “só uma grande insensibilidade do Ministério da Saúde permite que estes doentes não sejam tratados”.

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