Estudo: Três em cada 10 crianças que andam no infantário têm asma

Investigação envolveu mais de 40 instituições de Lisboa e Porto

Três em cada dez crianças que frequentam infantários têm asma, segundo um estudo realizado em mais de 40 instituições de Lisboa e Porto que analisou o impacto da ventilação destes espaços na saúde respiratória dos menores.

A investigação, realizada por peritos da Faculdade de Ciências Médicas e do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), está quase em fase de conclusão e os primeiros resultados obtidos vão ser discutidos no próximo mês num seminário em Lisboa.

Em entrevista à agência Lusa, os investigadores Nuno Neuparth e João Vaz revelaram que uma das conclusões é a necessidade de melhorar as formas de ventilação dos espaços.

Quando as janelas das salas dos infantários se encontram encerradas, a qualidade do ar tem níveis piores, mostrando maior saturação, nalguns casos com níveis “relativamente elevados”. Esta realidade foi testada medindo os níveis de C02 (dióxido de carbono) que, por seu lado, surgem também associados a manifestações de asma, como a pieira.

“Quanto maior o nível de C02, maior é o nível de pieira”, explicou Nuno Neuparth, alergologista e professor na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, adiantando que o C02 foi utilizado apenas como indicador de viciação do ar ambiente.

Para atestar a condição de saúde das crianças, os investigadores começaram por realizar questionários às famílias dos meninos das 46 instituições particulares de solidariedade social de Lisboa e Porto, todas frequentadas por menores dos 0 aos 5 anos.

Foram os resultados destes inquéritos que permitiram concluir que quase 30% destas crianças apresenta asma, tendo tido pelo menos um episódio de pieira no último ano.

Uma prevalência maior do que a registada na população geral, refere Nuno Neuparth, lembrando que um estudo mundial com uma componente portuguesa demonstrou uma prevalência de 15% em adolescentes de 13/14 anos.

Além dos questionários, os peritos realizaram testes não invasivos para medir a acidez e inflamação dos brônquios e fizeram zaragatoas (colheita de saliva) em 60 meninos.

Pegaram depois num grupo também de 60 crianças da mesma idade que visitou as urgências do Hospital da Luz e compararam as características das infeções virais dos dois grupos.

“Concluímos que os vírus são diferentes. De uma maneira geral os que infetam os da creche são menos graves”, adiantou o investigador.

Depois de analisadas crianças e condições ambientais nos 46 infantários, o estudo centrou-se, numa segunda fase, em 20 instituições, tendo sido escolhidas as que apresentaram piores e melhores níveis de viciação do ar.

Além da importância de ter sistemas de ventilação nos edifícios, os investigadores dizem que com a alteração de procedimentos nas creches pode ser suficiente, apontado como exemplo a abertura das portas das salas durante os intervalos das atividades.

Este projeto, que recebeu 180 mil euros de financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, vai precisamente culminar com um livro com recomendações para os infantários.

“Estes meninos estão mais expostos a infeções virais do que os que não estão no infantário. Podemos ajudar a resolver o problema recomendando que se melhorem as condições de vida nas creches. Certos de que para melhorar a qualidade do ar interior é preciso melhorar a ventilação”, resume Nuno Neuparth.

Para as crianças com episódios de asma ou pieira, a recomendação passa pela consulta a um médico especialista, que pode definir estratégias de tratamento e prevenção que os proteja e diminua a sua desvantagem em relação aos outros colegas.


20 de dezembro de 2012

@Lusa


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