Portugal pode eliminar a hepatite C já amanhã. "Não é uma questão de financiamento, é uma questão de organização"

A conclusão é de uma investigação da "Nova School of Business & Economics" da Universidade Nova de Lisboa (UNL) que identifica um conjunto de iniciativas para passar da visão à ação no que concerne à redução substancial da incidência e prevalência do vírus da hepatite C em Portugal até 2030.
créditos: Pixabay

A referida universidade apresentou esta terça-feira as conclusões de um estudo que pretende contribuir para a implementação de um plano estratégico nacional para atingir o objetivo da Organização Mundial de Saúde de eliminar a hepatite C até 2030 em Portugal.

João Marques Gomes, coordenador e um dos autores do estudo “Eliminar a hepatite C em Portugal: da visão à ação”, explica que “a eliminação da hepatite C não é uma questão de financiamento ou de falta dele, é uma questão de organização, se o poder político quiser implementar as nossas propostas pode fazê-lo amanhã”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), na sua primeira estratégia global para as hepatites virais, de junho de 2016, estabelece o objetivo de reduzir a incidência do vírus da hepatite C em 90% e a mortalidade associada a esse vírus em 65%, até 2030. No mesmo ano, no âmbito do plano europeu de ação contra as heptaites virais da OMS, Portugal comprometeu-se a cumprir esse o objetivo, sendo que já tinha assumido o compromisso de eliminar a hepatite C como problema de saúde pública garantindo o acesso universal ao tratamento.

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"Este estudo identifica, em primeiro lugar, os principais problemas ao longo da cascata de cuidados do vírus da hepatite C em Portugal, isto é, as lacunas e barreiras existentes em matéria de awareness e prevenção, rastreio e diagnóstico, ligação aos cuidados de saúde, acesso aos cuidados de saúde especializados, acesso ao tratamento, e finalmente, avaliação e monitorização", explica um comunicado da UNL.

Um doente “perdido” é um foco de transmissão

Em segundo lugar, o estudo conclui que a grande maioria dos problemas resulta da falta de coordenação entre os vários intervenientes da cascata de cuidados, o que leva a que uma proporção significativa dos doentes se perca ao longo desse percurso. De destacar que um doente “perdido” é não só um doente não curado mas também um foco potencial de transmissão da doença.

Identificados os principais problemas ao longo da cascata de cuidados do vírus da hepatite C em Portugal, este estudo apresenta um conjunto de recomendações. "Proximidade, simplificação e integração são as palavras-chave, enquanto o rastreio universal, os cuidados de saúde primários e a prestação de cuidados de saúde na comunidade constituem a estrutura que permitirá eliminar a hepatite C como ameaça à saúde pública em Portugal num futuro próximo", lê-se num comunicado da UNL.

Recomendações-chave do estudo:

1- Diagnóstico e tratamento na comunidade, para uma proximidade efetiva entre o doente e o sistema de saúde.

2- Gestor de caso, que permite dar resposta a um conjunto de problemas identificados no atual percurso do doente.

3- Financiamento e incentivos alinhados, no que diz respeito ao rastreio, diagnóstico e tratamento.

4- Navegador de saúde, cuja função é acompanhar o doente desde o rastreio até ao primeiro contacto com os cuidados de saúde e ao longo das várias consultas necessárias até ao fim do tratamento.

5- Rastreio universal, num curto espaço de tempo é uma forma custo-efetiva de determinar a epidemiologia da infeção pelo vírus da hepatite C, de identificar todos os doentes e de consequentemente quebrar a cadeira de transmissão.

O que é a hepatite C?

A hepatite C é uma doença global, física, mental e social. O papel da sociedade é aumentar as condições de vida das pessoas em situação de exclusão social. Ao deixar que o vírus da hepatite C continue a ser transmitido, que os doentes continuem a ser diagnosticados só em fases mais avançadas da doença, ou que os doentes diagnosticados não sejam tratados, estes custos económicos e sociais continuam a agravar-se, para além de que o risco de mortalidade dos doentes também aumenta.

artigo do parceiro: Nuno Noronha

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