Doentes oncológicos faltam a tratamentos com medo de perder emprego

Especialistas em dor crónica denunciaram que há doentes graves que faltam às terapias da dor por falta de dinheiro para os transportes e outros pedem para fazer o tratamento em horário pós-laboral com medo de perder o trabalho.
créditos: AFP/Alexander KHUDOTEPLY

"Nós temos doentes muito doentes, mas muito doentes, que são o ganha-pão da família e continuam a trabalhar até puderem para não faltarem ao trabalho", contou à agência Lusa Beatriz Craveiro Lopes, diretora da Unidade da Dor do Hospital Garcia de Orta e da direção da Associação para o Desenvolvimento da Terapia da Dor.

Na Unidade da Dor do Hospital Garcia de Orta, em Almada, são traçados planos terapêuticos para cada doente, que reúnem várias técnicas para aliviar a dor, como radiofrequências, neuroestimulação, reiki, psicodrama, musicoterapia, mas nem sempre são possíveis de cumprir por falta de disponibilidade do paciente.

"Muitas vezes há alguma dificuldade, não porque o doente não esteja interessadíssimo e empenhadíssimo" em fazer o tratamento, mas porque para o fazer "tem de se ausentar das suas atividades laborais" e eles "têm imenso medo de perder o emprego", explicou a anestesiologista.

Contou ser frequente os doentes perguntarem se é possível fazer o tratamento em horário pós-laboral, um problema que os profissionais tentam gerir, mas que é difícil porque os horários estão estabelecidos (08h00/18h30).

"São tantos os doentes nestas condições que é confrangedor e nós sentimo-nos impotentes, porque também não temos muita margem de manobra, porque há horários institucionais que não podemos alterar", explicou.

Falta de dinheiro para transportes

Também há casos de alguns doentes que, apesar de estarem "empenhadíssimos no seu tratamento", faltam à consulta por falta de dinheiro para os transportes.

Algumas vezes tenta-se resolver a situação através de uma consulta pelo telefone para evitar a deslocação do doente, mas nem sempre é possível, disse Beatriz Craveiro Lopes, sublinhando que "é mais uma arma para defender os doentes".

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