Doentes mentais: Programa ajudou 65 sem-abrigo a deixar as ruas de Lisboa

Anabela, poetisa de 45 anos que nunca organizou os poemas em livro, deu uma volta à vida quando decidiu ter uma casa através do programa “Casas Primeiro”, que ajudou 65 sem-abrigo com doenças mentais a deixar as ruas de Lisboa.

O programa começa por auxiliar pessoas sem-abrigo de longa duração e com doenças mentais a arrendar uma casa individual, garantindo-lhes o acompanhamento por técnicos especializados para que consigam um projeto de vida e não voltem a morar na rua.

Para Anabela, no programa há um ano e meio, o "Casas Primeiro" tem sucesso porque a casa não vem sozinha.

“Mesmo que arranjemos um quarto, temos tendência a voltar para a rua assim que aparecem as dificuldades. Aqui dão-nos apoio psicológico conforme a nossa doença e nós precisamos de sentir aquela luzinha, a dose de humanidade e de ajuda que acompanha o projeto”, salientou esta mulher, que chegou a frequentar o ensino superior e que se diz uma poetisa, daquelas que ainda não organizou os poemas em livro "para apresentar às editoras".

Quem entra no programa aprende também como fazer uma alimentação saudável a baixo custo, como ter uma conta bancária ou manter boas relações com vizinhos, com o objetivo de integração na comunidade.

Os planos de gestão são individualizados, mas todos contribuem com 30 por cento dos seus rendimentos para a renda da casa, sendo o resto apoiado pelo Instituto de Segurança Social.

As rendas custam em média 350 euros e as casas estão distribuídas pela cidade de Lisboa.

“As pessoas que estão na rua, principalmente se têm uma doença mental, estão muito desorganizadas. Ensinamos-lhes como recuperar as suas vidas, como ter um bilhete de identidade, como pedir subsídios a que tenham direito, como recuperar as reformas, porque muitos trabalharam e têm direito a reformas que nuca pediram”, exemplificou José Ornelas, coordenador do programa, que é desenvolvido pela Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS).

É a partir desta estabilidade habitacional que surgem as outras.

“Normalmente as pessoas vivem sozinhas, mas entre elas há também casais ou quem esteja a recuperar a sua família, nomeadamente os filhos retirados pelo tribunal, porque tem agora uma casa e uma vida mais estável”, salientou José Ornelas.

A Anabela, o que mais custa no projeto e na vida é a solidão de estar sem a filha, que vive com os avós maternos, apesar de conseguir ver a família mais vezes, agora que tem uma casa.

“Quando estava na rua a minha mãe era diferente para mim. Era mais rude. Agora sinto que me respeita mais”, explicou esta mulher, a quem a doença prejudicou as relações da sua vida.

Segundo José Ornelas, o programa tem uma taxa de sucesso de 91 por cento e apenas cinco pessoas saíram, embora não necessariamente para regressar à rua.Dez dos participantes estão já em processo de reinserção profissional.

Agora que tem uma casa, é este o maior desejo de João, no programa desde maio.

“Tem de ser um emprego a meio tempo, porque sou muito ansioso. Quero fazer muita coisa ao mesmo tempo e não consigo ser organizado”, afirmou à Lusa este homem, de 35 anos, reformado da marinha.

Os altos índices de recuperação e de reinserção social com custos baixos do “Casas Primeiro” leva José Ornelas a defender que o programa “deveria ser generalizado a todos os sem-abrigo” do país.

Pelo "enorme esforço" que tem feito na área da inclusão social, a AEIPS recebe hoje o Prémio Gulbenkian Beneficência 2011, no valor de 50 mil euros.

20 de julho de 2011

Fonte: Lusa

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