Diabetes: “Temos urgentemente de mudar atitudes, pois chegaremos a um ponto insustentável”

Em 2014, o relatório de Saúde da OCDE apontou Portugal como o país da Europa com a mais alta taxa de prevalência da diabetes. Atenta a esta questão, a dietista Joana Oliveira partilha a sua experiência de campo e deixa o alerta: “Temos urgentemente de mudar atitudes, pois chegaremos a um ponto insustentável”.
créditos: Lifestyle

A Joana publicou um livro alertando para uma mudança de atitude face à diabetes.  O primeiro capítulo de “Comer para controlar a diabetes” é um verdadeiro alerta para os riscos associadas a esta doença. Chama-lhe “epidemia silenciosa”. Quer explicar?

Este é um problema de saúde pública. Trata-se, de facto, de uma epidemia porque está a aumentar à escala global e muito rapidamente. É a própria Organização Mundial de Saúde que assim define a diabetes, como uma epidemia. Aquela organização diz mesmo que será a doença mais mortal no próximo quarto de século. Actualmente, os países que têm maior prevalência na diabetes são os dois estados mais populosos do globo, a Índia e a China. Na Índia ter diabetes é quase sinónimo de estatuto pois indica abundância. Ou seja, já não é só um problema dos países ocidentais. Em Portugal temos perto de um milhão de pessoas com diabetes, mais de 13% da população. E, dentro deste número, perto de 90% dos indivíduos apresenta diabetes tipo 2, associada ao sedentarismo, alimentação, tabagismo, urbanismo e envelhecimento. Uma diabetes que é possível prevenir.

No seu livro dá-nos um exemplo marcante no que toca ao número de diabéticos à escala mundial. Quer partilhar connosco?

Sim, são números de uma campanha muito interessante da Federação Internacional da Diabetes [International Diabetes Federation]. Ou seja, se juntássemos todas as pessoas com diabetes, teríamos o terceiro país mais populoso do mundo, a seguir à Índia e à China.

Porque razão dizemos tratar-se de um problema silencioso?

Repare, a diabetes tipo 1, que é menos prevalecente e que ainda não tem uma causa definida, é difícil prevenir ou curar. Já a diabetes tipo 2 tem um desenvolvimento muito gradual. Na diabetes tipo 1, causada por uma reação autoimune, temos sintomas. Na diabete tipo 2, quase metade das pessoas em Portugal que a tem desconhece o facto. Como os níveis de açúcar no sangue aumentam lentamente o organismo adapta-se e não há alerta. Dado prevalecer em indivíduos mais velhos, associamos os sintomas à própria idade, começamos a ir mais vezes à casa de banho, bebemos mais água, perdemos peso, apresentamos a visão turva. Muitas vezes o diagnóstico da diabetes tipo 2 surge após complicações associadas à doença. Por exemplo, a função renal alterada, uma ferida no pé difícil de sarar.

Ou seja, evitar a diabetes tipo 2 passa por mudar o estilo de vida?

Sim, e aqui a alimentação é determinante. Hoje em dia temos acesso fácil a alimentos extremamente industrializados, muito processados, refinados, com ingredientes que têm impacto no nosso organismo. Neste contexto temos a diabetes,a hipertensão, a hipercolesterolemia, a chamada síndrome metabólica que é quase como uma bomba relógio. Ou seja, a pessoa começa a ter peso a mais, valores de glicémia e tensão arterial alterados, colesterol e triglicéridos elevados. O risco de acidentes cardiovasculares aumenta.

Na diabete tipo 2, quase metade das pessoas em Portugal que a tem desconhece o facto. Como os níveis de açúcar no sangue aumentam lentamente o organismo adapta-se e não há alerta.
No fundo pagamos um preço pelo facilitismo e conforto da vida moderna. Será que é caso para dizer que não podemos alterar o contexto, apenas minimizar os efeitos?

Espero que não. Se não se fizer nada, há dois possíveis caminhos, a diabetes continuar a aumentar exponencialmente, ou vai continuar a aumentar ao mesmo nível. Contudo, e em sentido contrário, alguns estudos apontam para outro cenário: havendo intervenção, a longo prazo conseguimos, dentro de 10, 15 ou 20 anos, estabilizar e reduzir um pouco o número de diabéticos. Repare, estamos a falar de estabilizar nas perspetivas mais otimistas. Temos urgentemente de mudar atitudes, pois chegaremos a um ponto insustentável.

Diabetes: “Temos urgentemente de mudar atitudes, pois chegaremos a um ponto insustentável”
Joana Ramos Oliveira, autora do livro "Comer para Controlar a Diabetes". Dietista, entre outras atividades, integra presentemente a equipa do projeto “Não à Diabetes!” Um Desafio Gulbenkian, que pretende evitar 50 mil novos casos de diabetes nos próximos cinco anos.

Em seu entender há hoje em dia informação a mais, mas pouco esclarecimento?

Julgo que sim. Tanto quanto me é dado perceber no trabalho junto da comunidade é que a confusão é muita quando se fala da diabetes. Circula muita informação e por vezes oposta. No terreno, já me deparei com pessoas que têm a diabetes diagnosticada e não sabem que têm a doença. Ora, como pode o individuo controlar uma doença que desconhece? Por vezes até sabe que tem a diabetes, mas confunde-a, por exemplo, com o colesterol elevado.

E no que respeita a um público sempre importante, as crianças, é feita prevenção nas escolas, por exemplo?

A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), onde sou formadora, tem projetos de sensibilização nas escolas. Isto para que não haja por parte da comunidade escolar o estigma da criança que tem diabetes. Com estas acções acabamos por esclarecer e sensibilizar todas as crianças. Trata-se de um público fundamental.  Veja-se o que se passou com o alerta para a  reciclagem. As crianças assimilaram a importância de reciclar e tornaram-na prática em casa. Julgo que se pode fazer isso com a alimentação saudável. Alertar para os benefícios associados a um peso saudável será mais interessante do que falar de uma doença num futuro vago.

Na APDP já sentiram pressão por parte da indústria alimentar para ver o vosso nome associado ao produto A ou B?

Sim, mas declinámos sempre. A APDP só se associou a um produto, o “Pão São Diabetes“, do Museu do Pão, em Seia. Toda a elaboração do pão foi revista ao milímetro com a equipa da Associação. É preciso ter cuidado ao ligar o nome a um produto alimentar que pode não corresponder aos nossos critérios. Os convites foram sempre para produtos especiais para diabéticos e a Associação defende que a alimentação saudável, para a pessoa com diabetes, não exige estes produtos.

Na próxima página: "o portador da diabetes não tem de ser escravo de uma dita insípida".

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