Criação de novas substâncias sintéticas aumenta riscos para saúde pública

Aparecimento de um comércio próspero de euforizantes legais causou uma mudança no mercado da droga
28 de maio de 2013 - 10h32



A quantidade, o tipo e a disponibilidade de novas drogas sintéticas na Europa aumentaram em 2012, proliferando sobretudo através da Internet e acarretando fortes desafios para a saúde pública, aplicação de legislação e tomada de decisões políticas.



O alerta para esta realidade é dado no novo relatório conjunto da Europol e da agência europeia de monitorização do fenómeno da droga (EMCDDA – Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, OEDT na antiga sigla em português), hoje apresentado em Lisboa, a par do Relatório Anual Europeu sobre Drogas 2013, que marca as última tendências e evoluções do fenómeno da droga na União Europeia, Noruega, Croácia e Turquia.



De acordo com o documento, em 2012 foram “oficialmente notificadas, pela primeira vez, 73 novas substâncias psicoativas”, através do Sistema de Alerta Rápido (SAR) da UE, o que, para os especialistas, “confirma a tendência para o aumento de novas substâncias notificadas em cada ano: 24 em 2009, 41 em 2010 e 49 em 2011”.



Na análise conjunta do EMCDDA e da Europol, no ano passado, a lista de substâncias notificadas foi dominada por 30 canabinoides sintéticos, que imitam os efeitos da canábis.



“O Sistema de Alerta Rápido da UE monitoriza atualmente mas de 280 substâncias psicoativas”, sendo que o número notificado “nos últimos dois anos corresponde a mais de metade do número total” notificado desde 2005.



Na opinião dos especialistas, “a globalização, o progresso tecnológico e a Internet permitiram o desenvolvimento de um mercado aberto a novas drogas, que acarreta desafios significativos para a saúde pública, para a aplicação das leis e para a tomada de decisões políticas”.



Até há cerca de 10 anos, a maior parte das novas substâncias psicoativas que surgiam no mercado europeu da droga era produzida em laboratórios clandestinos ou proveniente de medicamentos desviados e era vendida diretamente no mercado de drogas ilícitas.



“Embora a situação se mantenha, o aparecimento de um comércio próspero de ‘euforizantes legais’ na Internet e em lojas especializadas, em zonas urbanas, causou uma profunda mudança no mercado da droga. Atualmente, estas substâncias, frequentemente produzidas na China e na Índia, são agora importadas a granel para a Europa, onde são processadas, embaladas e vendidas”, adianta o documento.



Estas substâncias podem acabar também por ser vendidas nas ruas, como substitutas das anfetaminas, do ecstasy, da heroína ou da cocaína, ou em lojas, vulgarmente conhecidas por ‘smartshops’, que vendem produtos legais como fertilizantes, entre outros, que acabam por ser substitutos sintéticos de drogas, vendidos a preços muito inferiores.



Em abril passado, o Governo português proibiu a venda, produção e publicidade de 159 substâncias psicoativas em ‘smartshops’ e através da Internet, que, até então, eram consideradas como “drogas legais”.



Segundo o documento conjunto do EMCDDA e da Europol, “agora, mais do que nunca, é necessário obter informação atualizada e cientificamente rigorosa sobre as novas substâncias provenientes de toda a Europa e do exterior”.



O relatório evidencia “algumas dificuldades na monitorização deste mercado de drogas emergentes, como a identificação de novas substâncias cada vez mais complexas e a interpretação de dados limitados sobre os níveis de consumo”.



As informações fornecidas pelos Estados-membros permitiram, em 2012, avaliar os riscos de duas substâncias muito diferentes que foram associadas a mais de 40 mortes na Europa.



O diretor da Europol, Rob Wainwright, sublinha que “o fenómeno das novas drogas é reconhecido como um problema global e como um mercado globalizado, o que o torna particularmente difícil de controlar”.



O mesmo responsável alerta que “o crime organizado está envolvido na produção de novas drogas, num mercado em rápido desenvolvimento e expansão, com baixos riscos e lucros elevados”.



Lusa
artigo do parceiro: Nuno Noronha

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