Casa do Gil: 114 crianças retiradas dos hospitais onde "viviam" indevidamente

Mais de cem crianças “viveram” temporariamente na Casa do Gil, que ontem celebrou cinco anos. Para trás ficam histórias de sucesso como a do menino que nunca tinha ido à escola e ali aprendeu a ler.

Na avenida do Brasil, em Lisboa, existe uma família que nunca dorme: na vivenda cor-de-rosa há sempre alguém acordado, há sempre assuntos urgentes para tratar. “Até hoje, passaram pela casa 114 crianças que estavam indevidamente nos hospitais”, conta à Lusa a administradora da instituição, Margarida Pinto Correia. As razões que levam bebés e crianças até aos 12 anos até à Casa do Gil podem ser muito variadas, mas resumem-se em poucas palavras: “aqui a nossa doença é a social”, lembra.

“Existem centenas de crianças que ficam nos hospitais injustificadamente, algumas sem qualquer problema clínico e outras com doenças graves, mas sem necessidade de ali permanecer”, sublinha Margarida Pinto Correia. As crianças que entram na Casa do Gil já tiveram alta clínica mas não têm condições de reintegração imediata no seu meio natural de vida.

Há histórias de meninos retirados aos pais por decisão judicial "por se encontrarem em situação de perigo" e crianças que aguardam que a família reúna as condições necessárias para que possa regressar a casa. A permanência na instituição pressupõe precisamente a preparação do regresso à família como parte integrante da sua reintegração social.

Na Casa do Gil existem três equipas - técnicos de enfermagem, ação social e educação - que têm conseguindo transformar a vida de muitas crianças. “Tivemos aqui meninos de 10 e 11 anos que nunca tinham ido à escola porque tinham passado os últimos anos nos hospitais em tratamentos. Por isso foi aqui que se prepararam para ir para a escola”, recorda a administradora.

Quando foi inaugurada em 2006, os responsáveis pelo projeto orgulharam-se por estar a participar no primeiro Centro de Acolhimento Temporário de Cuidados Pós-hospitalares de Saúde do país. Passados cinco anos, a administradora da instituição desabafa: “ainda somos o único”.

Entre 2006 e 2011, foram analisados 178 pedidos de acolhimento, mas apenas 114 tiveram resposta positiva por parte da equipa técnica. Todos os outros foram indeferidos. "Nós não podemos receber mais", lamenta Margarida Pinto Correia, lembrando que em tempos imaginaram que o projeto da casa se iria replicar.

Os anos de contenção financeira obrigaram à suspensão do sonho de crescimento. A Casa do Gil custa meio milhar de euros por ano mas, segundo a responsável, este é um projeto bastante económico para os cofres do estado: "aqui, uma criança custa por noite 80 euros mas em um Hospital custa cerca de 500 euros".

Além da questão económica, Margarida Pinto Correia lembra as vantagens para as crianças de trocarem o ambiente hospitalar por um mais familiar como o da Casa do Gil, com capacidade para 16 crianças e com uma equipa de enfermagem que trabalha 24 horas por dia. E são eles que garantem que nesta família há sempre alguém acordado.

14 de julho de 2011

Fonte: Lusa

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