Bastonário alerta que há doentes condenados à morte por falta de medicamentos

Falta de pessoal médico está a gerar o caos nos hospitais, alerta José Manuel Silva
16 de dezembro de 2013 - 12h55



O bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, recentemente reeleito, revela que “há doentes com hepatite C a serem condenados à morte pelo atraso na aprovação da medicação". Em entrevista ao jornal i, o bastonário que foi reeleito para um segundo mandato de três anos, afirma que “a medicina está-se a desumanizar” e que há hospitais “mais preocupados com as contas do que com os doentes”.



“Se tivesse hepatite C, já tinha posto o Ministério da Saúde em tribunal, por sonegar o direito ao tratamento. A nova medicação mais do que duplica a taxa de cura. Nestes dois anos já houve doentes que evoluíram irreversivelmente para cirroses e cancro do fígado. Foram condenados há morte por atraso na aprovação da medicação”, afirmou na entrevista ao jornal i.



José Manuel Silva não considera que “defender os doentes ou o Serviço Nacional de Saúde seja populista. Quando digo que há doentes com hepatite C a ser condenados à morte não é populista. É real, é verdadeiro. Às vezes a sociedade, e sobretudo a classe política, tem dificuldade em lidar com a verdade. Mas eu não sou político”.



O bastonário da Ordem dos Médicos afirma que “não gostaria de me deixar inquinar pela política”, e que nos últimos anos ganhou uma ideia diferente da política que “nem sempre se faz pelas razões mais nobres”.



“Os médicos estão preocupados e empenhados na defesa da qualidade do Serviço Nacional de Saúde. Estão mais preocupados, claramente, porque há mais dificuldades (…) Há muitos e graves problemas, neste momento”, acrescenta.



Pouco pessoal



José Manuel Silva, que até 2011 trabalhava nos Hospitais da Universidade de Coimbra, revela que as urgências do CHUC “estão um caos”. “Há três filas de macas nos corredores. Há falta de enfermeiros e de auxiliares. Não é possível, mesmo que os profissionais de saúde deem 200 por cento, responder com qualidades nestas circunstâncias”.



“Os médicos continuam a ter muito cuidado e atenção com os doentes, o problema é que hoje têm menos tempo para essa atenção e isso continua com a agravante de haver faltas recorrentes de material e uma imposição absolutamente impressionante para a burocracia", frisou.



"Os sistemas informáticos estão permanentemente bloqueados e a ser alterados. Para se imprimir uma receita perde-se uma hora, com desespero dos médicos e doentes. Neste momento só são emanadas deliberações que vão tornar mais trabalhoso o exercício da medicina, com prejuízo para os doentes. A medicina está-se a desumanizar. E se o ministro não sabe o que se passa no terreno é porque não quer saber”, acrescentou.



“Numa visita recente às urgências do Hospital de Aveiro havia 39 doentes internados em macas há três dias e o serviço de medicina interna com uma taxa de ocupação superior a 200 por cento. Isto é inacreditável num país civilizado”, exemplificou.



SAPO Saúde
artigo do parceiro: Nuno Noronha

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