Adultos que ficam cegos reaprendem a viver no único centro de ajuda do país

Hoje assinala-se Dia Mundial da Bengala Branca

15 de outubro de 2013 - 07h15

A cegueira que afetou João, Brígida e Liliana já adultos não os fez desistir e no Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa, reaprenderam a viver e recuperaram a autonomia perdida.

O Centro de Reabilitação Nossa Senhora dos Anjos existe há 50 anos e é o único no país onde pessoas adultas que ficam cegas podem “reaprender a (vi)ver”, lema da instituição que está agora sob gestão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

José João Casimiro tem 36 anos e ficou cego o ano passado. Em cinco meses, saiu do hospital e entrou no centro.

Foi difícil conhecer o novo espaço, mas nos seis meses que lá esteve aprendeu de tudo um pouco, desde artesanato, organização do vestuário, cozinha ou informática.

Quando José João ficou cego, o filho tinha apenas seis meses e ele tinha medo de lhe pegar ao colo. Hoje já é capaz e aprendeu a vê-lo de outra maneira.

“Pelo peso, quando o seguro ao colo, pelas palavras que ele vai dizendo e também pela expressão. Toco-lhe na cara para o ver”, explicou à agência Lusa.

Brígida Cruz tem 67 anos e muito baixa visão. A perda de visão foi um processo que demorou 17 anos, já a doença que a provocou apareceu de repente através de umas manchas nos olhos.

Esteticista durante muitos anos, trabalhou depois como rececionista até 2011, profissão que abandonou “quando já não conseguia identificar as pessoas”. Nessa altura fechou-se em casa e teve “uma depressão muito grande”.

Recorda, no entanto, que a primeira vez que lhe puseram uma bengala nas mãos chorou: “Chorei e na primeira aula não fiz nada. Na segunda nada fiz e tive uma série de dias sem conseguir”.

Para Brígida, a explicação é simples: “A bengala é uma coisa que não nos deixa passar indiferentes e eu sabia que ao pegar nesta bengala toda a gente ia perceber o meu problema”.

Pelo caminho, aprendeu novas técnicas na cozinha e, com agulhas de costura próprias para cegos, voltou a pregar um botão ou a fazer uma bainha.

Para a diretora do centro Ana Magalhães, o objetivo é “dotar as pessoas da máxima autonomia possível para poderem prosseguir as suas vidas”.

Também ensinam a reconhecer a roupa, a distinguir o dinheiro, a utilizar o multibanco, a aprender braille, informática ou até mesmo a cozinhar.

Liliana Fernandes tem 33 anos e um objetivo de vida bastante ambicioso. Antes de ficar cega tirou um curso de pastelaria e de cozinha e gostava de abrir o seu próprio negócio.

Teve uma trombose ocular há cerca de sete anos, situação que, aliada ao facto de ser diabética desde os 14, a obriga a fazer várias cirurgias aos olhos.

Como consequência, do olho direito não vê nada, do esquerdo ainda vê vultos.

“Se calhar descobri que a vida tem coisas maravilhosas e que não podemos parar. Por morrer uma andorinha, não acaba a primavera”, contou.

Os utentes chegam ao centro através dos hospitais, escolas para pessoas com problemas de visão ou inscrevem-se mesmo através do site na Internet. Preferencialmente entram em grupo e ficam no mínimo dois meses.

Ana Magalhães apontou que o centro é único a nível nacional, tendo já ajudado cerca de 2.200 pessoas a “reaprender a (vi)ver”.

Hoje assinala-se o Dia Mundial da Bengala Branca, data instituída em 1970 pela Federação Internacional dos Cegos.

Lusa

artigo do parceiro: Nuno Noronha

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