Opinião: Ser escutado na doença e na dor

A solidão que se vai alimentando na sociedade moderna está, de um modo acelerado, a transformar o ser humano num cidadão ensimesmado, que não consegue ouvir nem ser ouvido. Um artigo de opinião de Fernando d’Oliveira, assistente espiritual na Casa de Saúde do Telhal.
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O estilo de sociedade apressada e competitiva em que atualmente vivemos empurra, tantas vezes, o ser humano para uma experiência dramática e assustadora de isolamento social, e de incomunicação emocional e afetiva, que desagrega, que desestrutura, que vai minando o sentido da própria vida. Com excepção de alguns grupos profissionais próprios e específicos, poucos são aqueles que dão verdadeiramente atenção aos problemas pessoais dos outros.

E, verdade seja dita, são cada vez mais as pessoas – das mais variadas idades e das mais diferentes condições sociais – que vão sofrendo por causas diversas e que necessitam sentir-se escutadas, de forma genuína, por pessoas que estejam disponíveis para o fazer. Por pessoas competentemente preparadas que saibam escutar e que escolham oferecer os seus ouvidos e a sua própria condição à missão de uma Escuta Terapêutica.

Esta é uma dura realidade que diariamente se constata nos nossos Centros de Saúde, nos nossos Centros Sociais, em muitos Centros Assistenciais, onde repetidas vezes os seus profissionais se confrontam também com um inusitado número de pessoas a solicitar-lhes acompanhamento escuta.

Numa perspetiva mais burocrático-funcional estas são situações que vão, igualmente, entupindo o funcionamento do sistema de assistência e que, desta forma, dificultam a sua eficácia assistencial.

Contudo, não podemos ignorar que tantas são as causas que podem tornar profundamente dolorosa a existência humana. Quem faz a experiência de um trabalho hospitalar no campo da assistência social ou espiritual, sabe que são tantas as histórias que nos aportam diariamente e de natureza tão diversa, que é de todo impossível classificá-las e limitá-las a uma simples caracterização.

Sejam as histórias, que nos são testemunhadas, por aquelas pessoas em crise familiar ou de casal, que arrastam o seu mal-estar durante anos de forma solitária e que acabam por prejudicar a sua saúde, o seu equilíbrio pessoal, a manutenção do seu emprego ou da convivência social; ou o caso daquelas mães e/ou pais com filhos que vão sobrevivendo em cada dia num aparente clima de família, quando, na realidade, nada mais há senão tensões e silêncios dolorosos; sejam ainda aquelas situações de famílias que suportam a tensão de uma perda – qualquer que seja - ou da morte prematura de um ente muito próximo ou de um acontecimento fortemente traumático… Há, na realidade, e isso sabemo-lo bem, uma infindável panóplia de situações que retiram a vitalidade da pessoa e lhe sonegam o sentido para a vida…

Que fazer quando um pai ou uma mãe nos entram no gabinete, em profunda e inconformada angústia, pela forma dramática com que perderam um filho, que estava em plena flor da juventude, num trágico atropelamento ou num qualquer treino de futebol?

Que fazer quando um pai nos aborda perante o drama do desemprego e o facto de continuar a ter, diariamente, três bocas para alimentar?

Sente-se, de um modo muito particular, a falta de alguém, de espaços e de tempo onde as pessoas possam ser ouvidas naquilo que são e que sofrem, de forma genuína e gratuita, sem interesses comerciais nem segundas intenções; onde o outro seja realmente escutado no seu viver, quando deseja falar de si, das suas angústias, dos seus medos, dos seus dramas existenciais, do seu sentido de vida - ou da sua falta de sentido… Onde a escuta seja verdadeiramente a arte de silenciar e acolher a pessoa com o coração, escutando as suas dores, dificuldades e angústias, e, tanto quanto possível, possa ser-lhe proporcionado alívio e harmonia existencial. Onde, à sua espera, tenha, não a agitação e a pressa de quem vive na correria dos dias e dos ritmos profissionais, mas a disponibilidade de dois ouvidos que ali estão inteiramente para o escutarem e para entrarem pela sua existência. 

Foi com esta consciência que, em Lisboa, nasceu, há dias, numa feliz iniciativa de um grupo de Capelães e Assistentes Espirituais Hospitalares, e fruto da sua experiência diária, o primeiro Centro de Escuta do país. Um espaço (pequeno na sua dimensão física, mas enorme na sua utilidade) que, na sua missão primeira, pretende fundamentalmente prestar um real e dedicado acompanhamento às pessoas para, assim, a partir de uma perspetiva humanista e integral do ser humano - e tendo em conta, naturalmente, a sua dimensão física, racional, emocional, social e espiritual – ajudá-las a enfrentar, elas mesmas, as suas próprias dificuldades e auxiliando-as a potenciar os seus próprios recursos e possibilidades, através de técnicas de relação de ajuda e da psicologia de apoio.

Permitir à pessoa falar e oferecer-lhe ouvidos reais que desejam escutá-la e dispor-lhe um interlocutor verdadeiramente dedicado e adequada e competentemente preparado para se fazer presença e acompanhar perante o seu drama, propiciam-lhe condições para a diminuição da sua angústia e para o seu “desafogamento” existencial.

Dá-se, assim, espaço àquele que é escutado para que se comunique e se abra com total confiança e liberdade, para que se explore, para que se compreenda e que seja ele mesmo quem faz, afinal, a abordagem da sua situação e tome em mão a direcção da sua vida, atravessando o sofrimento, e integrando-o de forma mais saudável na sua biografia pessoal.

Por Fernando d’Oliveira, assistente espiritual na Casa de Saúde do Telhal

O Gabinete de Escuta fica localizado na Igreja do Sagrado Coração de Jesus Rua Camilo Castelo Branco, 4. Os atendimentos/encontros são feitos mediante marcação, através do telefone 964 400 675

artigo do parceiro: Nuno Noronha

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