Afinal, o que é um Porto Colheita?

A discórdia entre os dois estilos de vinho do Porto, Tawny e Ruby, é longa, com raízes históricas e filosóficas, instituindo dois mundos distanciados entre si, duas famílias com poucos pontos de contacto.

Enquanto os primeiros, os Tawnies, são sujeitos a uma evolução em barrica, em ambiente oxidativo, os segundos, os vinhos Ruby, dependem de uma evolução em garrafa, em ambiente redutor, arredados das graças do oxigénio.

Entre os vinhos de estilo Tawny, são os Colheita que vamos aqui destacar. Vinhos de um só ano, retratos fiéis de uma colheita, sem maquilhagem, espelho fiel da natureza.

Vinhos de lote de diferentes parcelas mas de um só ano, estes vinhos de uma só colheita são envelhecidos em cascos por um período mínimo de sete anos, originando vinhos com amplitudes de cor que vão do tinto alourado ao alourado, dependendo da sua idade. Igualmente os aromas e sabores evoluem ao longo do tempo originando diversos estilos de Tawnies.

São Vinhos de evolução lenta, de evaporação contínua, que necessitam ser periodicamente atestados com vinhos da mesma colheita, repondo o volume entretanto perdido. Por beneficiarem de um estágio tão prolongado em pipas de madeira velha, em ambiente profundamente oxidativo, os Colheita vão gradualmente perdendo a cor, adquirindo aromas terciários de frutos secos e especiarias, ampliando a doçura, proporcionando vinhos ainda mais complexos, untuosos e suaves.

Não é fácil fazer bons Colheitas. Trabalhar estes vinhos obriga a um rigor e a uma precisão dificilmente quantificáveis. Por estar limitado a uma só colheita, por depender da excelência de um vinho base que terá obrigatoriamente de ser absolutamente extraordinário, as opções do enólogo são muito mais limitadas. Só os atestos e correções de aguardente, os arejamentos e as trasfegas podem servir como armas na elaboração dos Colheita.

Estrategicamente ou não, o universo do Vinho do Porto foi dividido entre as casas dedicadas maioritariamente à causa dos Tawny e as casas mais devotas à escola dos vinhos Ruby, separando deste modo o Vinho do Porto entre casas de génese portuguesa e casas de matriz inglesa.

Historicamente, têm sido os produtores de inspiração inglesa a apostar e a comandar o mercado dos vinhos de estilo Ruby, sobretudo nas duas classes reinantes, LBV e Vintage.

Pelo contrário, têm sido as casas de génese portuguesa a privilegiar os vinhos de estilo Tawny, dominando as duas classes reinantes, os vinhos com indicação de idade e os Colheita.

Os Colheita que escolhi representam dois momentos importantes da história nacional e Internacional.

Como é o caso deste vinho ANDRESEN Porto Colheita 1910, que representa o ano em que foi implementada a República em Portugal, é um vinho cujo estágio de mais de 80 anos em barris de Madeira e nos últimos anos em antigos tonéis de carvalho, apresenta um conjunto de aromas encantadores a revelar toques de cacau e castanha, com notas de laranja cristalizada e “vinagrinho” de Porto muito velho. Requinte na boca com uma explosão a identificar um sabor único. O final é interminável, respirando classe.

Vinho Andresen

A Andresen, apesar de já ter passado um século desde a sua fundação, continua a ser uma das casas de Vinho do Porto mais recatadas, uma quase desconhecida pelos enófilos nacionais, preferindo manter uma posição low-profile de que não quer abdicar. É incontestavelmente uma das casas soberanas nos vinhos Colheita, estilo que ministra como poucos, consagrando vinhos jovens e irreverentes, sérios, complexos e tremendamente frescos.

Vinho Quinta do Noval

Da Quinta do Noval, uma das poucas Casas de Vinho do Porto famosas tanto pelos seus Vintage como pelos Colheitas trago-vos a minha segunda escolha, este QUINTA DO NOVAL Porto Colheita 2000, um velho Tawny que representa para mim, a viragem do século, momento em que se lançaram imensas duvidas sobre o Futuro. É a união perfeita entre a elegância e "finesse" com o carácter cremoso de frutos secos. Com muito equilíbrio entre idade e juventude, longo, fascinante. Tal como os Vintages, reflete o caracter específico do ano e da vindima. Cada vez mais raros, os Colheitas representam a expressão suprema dos Tawnies velhos. São vinhos do Portos raríssimos — entre os melhores da região do Douro —, produzidos em quantidades muito reduzidas e injustamente pouco reconhecidos. Deixe-se levar pela História!

Tudo sobre os dois estilos aqui

José Faria

Wine Adviser OUT OF THE BOTTLE

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