“A questão de o vinho não ter qualidade já nem se pode colocar”

Quando se fala em críticos de vinhos, o nome de João Paulo Martins é incontornável. O Sabores entrevistou o especialista a propósito do guia “Vinhos de Portugal 2013”.

Uma das novidades da edição deste ano do “Vinhos de Portugal 2013” é a inclusão de um capítulo de bons vinhos a menos de 4 euros. Como surgiu essa ideia?

É mais ou menos evidente, porque estamos numa altura em que as pessoas têm menos dinheiro para gastar e, como tal, vão pensar duas vezes antes de gastar dinheiro num vinho caro. Neste momento o mercado tem uma oferta significativa de vinhos que são baratos e que são bons. Acho que as pessoas podem sentir-se um bocadinho perdidas naquela gama de preços. No Guia, tem não só as notas de prova dos vinhos que tem mais de 14 valores, como uma listagem dos melhores dentro dos 4 euros.

Introduziu também uma área dedicada aos Long Bottled Vintage (LBV)…

Já podia ter começado isso há mais tempo, na verdade já podia ter começado no primeiro livro que fiz. Todos os anos há novos LBV, já se justificava esta escolha. Fiz aleatoriamente uma seleção dos melhores.

Como começou a escrever sobre vinhos? Vinhos de Portugal 2013

Comecei como mero consumidor que escrevia. Aos poucos, o jornalista que escrevia no Jornal de Vinhos pediu-me se podia ajudar. Comecei a ir com ele a provas, apresentações… A minha formação não era jornalismo, eu era professor de história. Tem sido tudo uma aquisição feita na prática.

Não tendo formação a nível de enologia, considera que tem um sexto sentido para perceber de vinhos?

Não sei se tenho… Acho que, ao fim de alguns anos, uma pessoa acaba por ficar com um registo de memória. Quando cheira um vinho, aquele aroma remete-o para uma determinada região ou determinado defeito, ou determinada casta. Depois, enfim, ao escrever, o facto de eu ser da área de letras ajuda. O facto de eu ter uma forte ligação à música, porque também fui professor de música, permite uma outra forma de escrever.

Para fazer o Guia teve de provar centenas de vinhos todos os dias?

Não, não. Fora desta época em que faço o guia (ocupa-me, mais ou menos, dois meses e meio de provas diárias) as provas são no âmbito da Revista de Vinhos ou do Expresso. Nesse âmbito provamos todos os meses as novidades. Depois vou pondo de lado, para o livro. Ao longo do ano, em reportagem, fazemos provas verticais, em casa do produtor, provas de vinhos velhos… Se eu fosse aceitar todos os convites não tinha tempo para dormir.

Na generalidade, 2011 foi um bom ano para vinhos?

Foi bom, mas para já refletiu-se nos brancos que já provei e vai-se refletir nos tintos que irei provar para o ano. Em princípio sou capaz de ter melhores notas nos tintos do que tive em 2010.

O que acha dos Blogues sobre vinhos que estão a surgir?

É ótimo, só assim é que nos crescemos. Temos de ter massa crítica de gente minimamente habilitada. Se aparecerem mais revistas e guias de vinhos, mas pessoas a escrever sobre vinhos, mais revistas com colunas de vinhos, tudo isso é bom.

E como vê a notoriedade dos vinhos portugueses, a quantidade de prémios que tem ganho em concursos internacionais e menções em revistas especializadas?

A diferença em relação à época em que eu comecei a escrever sobre vinhos (1989) e agora é de facto abissal – para melhor. Hoje, mesmo nos vinhos muito baratos, os tais vinhos até 4 euros, a questão de não ter qualidade é uma questão que já nem se pode colocar. Deixou de existir. Já não é possível por no mercado um vinho que não tenha uma qualidade mínima, por muito barato eu seja. A qualidade básica está assegurada em todos os patamares de preços. A qualidade média subiu imenso, situa-se num patamar que é muito bom e é vantajoso para o consumidor. Quando eu comecei ainda havia vinhos maus, a ponto de ter ido a tribunal por dizer que o vinho era mau…

Que surpresas teve ao fazer o guia deste ano?

Há um aspeto que considero surpresa negativa: há muita gente no setor do vinho que trabalha como amador. Acham que é giro ter o nome no rótulo. Revel a-se falta de profissionalismo: as pessoas não mandam vinhos, esquecem-se, não mandam mails, deixam na pasta de assuntos para tratar, saem colheitas novas e não enviam para a imprensa. Queixam-se que a imprensa não fala deles mas tem de ser da iniciativa deles darem-se a conhecer.

Fora isso não posso dizer que tenha tido grandes surpresas. Provei vinhos do Porto fantásticos, antigos. Alguns dos melhores do ano são carérrimos, mas são tão bons que não posso deixar de os incluir na lista dos melhores.

 

Ana César Costa

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