O regresso das águas de colónia

O que diferencia os aromas que remetem para os odores da nossa infância

A mais recente história do universo da perfumaria é também a mais antiga.

Se, por um lado, brotam as fragrâncias florais e amadeiradas, por outro, as colónias cítricas e frescas estão a voltar ao pescoço de muita gente.

Sempre fui adepta das fragrâncias frescas e cítricas. Não sou grande adepta de odores intensos e pesados.

Gosto de perfumes que não sejam invasivos, que não ultrapassem a minha bolha imaginária e atinjam os pobres coitados que se cruzam comigo. Acho que é um direito que lhes assiste! Não há nada pior do que passar o dia a sentir o perfume de alguém. Bom ou mau, se for demasiado pronunciado, acaba por ser excessivo e, em certos casos, até incomodar.

As novidades não param de chegar aqui à redação e, mesmo assim, quase sempre, o meu nariz apaixona-se pelas mais leves, enérgicas e que me recordam a infância. Lembro-me perfeitamente de, em miúda, ir passar o fim de semana a casa da minha avó e dela me despejar uma quantidade generosa de água de colónia em cima antes de sairmos para passear ou de borrifar umas gotas nos lençois sempre que fazia a cama de lavado.

O melhor era quando me deitava à noite. Sentir aquele perfume fresco e não me sentir minimamente enjoada. Era reconfortante deitar-me ali. Ultimamente, apercebi-me que, tal como eu, os meus amigos andam num frenesim a tentar reaver este cheiro. Há uns tempos descobriram em Campo de Ourique, em Lisboa, uma lojinha chamada Saco Útil, localizada na Rua Saraiva de Carvalho, 199, que, para além da clássica água de colónia de litro, vende gel de banho, amaciador para a roupa e ambientadores para a casa e para o carro que emanam a fragrância da marca espanhola Nenuco.

E que bom é chegar ao pé deles e, de repente, sentir aquela brisa leve mas que me deixa automaticamente com um sorriso na cara e que me transporta para aqueles dias em casa da minha avó. Os anos foram passando e eu continuei a alimentar esta paixão. Para além das típicas colónias de litro como a Nenuco ou a Denenes, que estavam sempre no toucador, para usar durante a semana, o frasco da 4711 também tinha lugar cativo. Outras se seguiram e vão continuar a fazer parte das minhas escolhas do dia a dia.

Uma história interminável

Mas porque é que uma fragrância tão inócua e discreta continua a fazer parte das nossas escolhas sem perder o seu lado cool? Acho que para perceber esta saga é fundamental sabermos de que é feita uma água de colónia. Para esclarecer o porquê da nossa vontade de ter na pele este aroma que irremediavelmente nos remete para a infância, falámos com o perfumista Lourenço Lucena, que nos contou um pouco da história que continuamos a escrever. 

De acordo com o especialista português, «aquela que é considerada a primeira água de colónia foi criada por Johann Maria Farina, em Colónia, em inícios do século XVIII. Esta criação foi de tal forma relevante para a cidade que ainda hoje a estátua deste perfumista figura na torre da câmara municipal de Colónia». Desenvolvida com o intuito de ser uma bebida medicinal, bem como para borrifar o corpo enfraquecido, a água milagrosa fez bastante sucesso numa altura em que a doença abundava, a higiene era rudimentar e os medicamentos eram usualmente feitos em casa. 

E percebo o objetivo do perfumista oficial da corte de Marie Antoinette ou não tivesse eu o hábito de salpicar algumas gotas de Nenuco na água do banho (ou na roupa antes de a passar a ferro) só para me sentir bem, sem nunca achar que estou a desperdiçar produto! A água de colónia foi concebida para ser usada generosamente e, talvez por isso, as marcas tradicionais sejam vendidas em garrafas grandes. 

No fundo, a água de colónia é uma fuga olfativa ao pesadelo sufocante das fragrâncias demasiado intensas. É como deitar abaixo um par de cortinas pesadas para deixar entrar pela janela a brisa fresca de um dia de verão luminoso. Apesar de nos transportar para os dias quentes de verão, acredito que é muito mais do que isso. Com a sua fórmula simples, é uma proposta descomplicada. Refrescante, otimista e honesta. 

Será que o nosso desejo de sermos transparentes em tudo o que fazemos também se aplica às fragrâncias? Para além disso, não será que o facto de durar poucas horas na pele a torna ideal nos dias que correm, em que tudo é efémero? A verdade é que mesmo sendo volátil, a água de colónia tem passado com distinção o teste do tempo. E é cool usá-la.

Separar as águas

Para ser considerada uma água de colónia, uma fragrância deve ter notas e características específicas. «Curiosamente, a água de colónia tornou-se num termo genérico, ainda que na realidade seja uma eau de toilette, pois contém mais do que 5% de compostos aromáticos», explica Lourenço Lucena que acrescenta que «a água de colónia é uma composição muito fresca e suave, tendo como notas mais relevantes a lavanda, citrinos, flor de laranjeira, gerânio e madeiras aromáticas como cedro e sândalo». 

Para que não restem dúvidas, há diferenças entre uma água de colónia, uma eau de toilette e uma eau de parfum. E o que as difere é, segundo o perfumista, «o grau de concentração, sendo a eau de parfum a mais concentrada, com mais tenacidade e durabilidade. A água de colónia, por vezes denominada splash, é a que apresenta menor grau de concentração e por essa razão é mais volátil e com menor tenacidade».

Ainda que as regras sejam estas, se não gosta de se sentir enganada quando compra fragrâncias, tenha em mente que as «águas de colónia mais fieis continuam a ser produzidas em Colónia, nomeadamente em Farina Haus e 4711 Haus», alerta o perfumista. Mas não é preciso ir tão longe. A herdeira da fórmula original é atualmente a Roger & Gallet, que adquiriu a marca no séc. XVIII, e que possui uma água de colónia de boa qualidade, a Jean Marie Farina, que está disponível no nosso país.

Texto: Madalena Alçada Baptista com Lourenço Lucena (perfumista) 

artigo do parceiro:

Comentários