Maternidade Uncut: a quase realidade

Chamo-lhe a quase realidade, porque é apenas a minha, os meus óculos de ver o mundo, a minha perceção, e não tenho a pretensão de a generalizar a todas as mulheres. Ninguém diz o quão vai ser difícil, temos apenas a versão romantizada da coisa.

maternidade mãe bebé pai

E também ninguém diz que depois de sucessivas perdas de uma gravidez, por muito inicial que seja, é difícil acreditar sempre a 100% que vai correr tudo bem, porque há um diabinho omnipresente atrás da nossa orelha, que nos lança dúvidas e nos deixa um nó no estômago.

Depois há quem ache que domina o destino e a vida, que quando estiver na hora, depois de me casar, ou de fazer isto ou aquilo, tenho filhos. Tenho... se tudo correr bem!

Na infância acreditava que quando fosse adulta poderia fazer tudo o que eu quisesse, que no mundo não havia zangas, doenças, mortes, mas afinal, elas existem. Aprendi a separar as más das boas energias, e a rodear-me apenas das últimas (quando possível). E usei e abusei do mindfulness, tão simples quanto isto – centrar-me no momento presente, ter essa humildade, aceitando o passado e não projetando ansiosamente o futuro. Viver isto, aqui, agora, este momento em que vos escrevo, em que a tinta passa para o papel, em que olho lá para fora e está sol e um cão ladra – o momento presente. Esta é talvez uma das chaves para a felicidade: meditação, concentração, domínio da mente. Os cursos de preparação para o parto ajudam muito, mas depois se algo não acontece como pensávamos que ia acontecer, sentimos as nossas expetativas goradas e sentimo-nos pouco autoeficazes. Mas então espera lá! A enfermeira disse que se eu lhe pegasse assim que ele se acalmava, mas isso não está a acontecer…! A água do banho não está a 37ºC, está a 36ºC, sou uma péssima mãe!

Sentimo-nos um alien na nossa própria vida e relações. Sempre fui muito boa a exprimir-me, mas agora a dificuldade é fazer com que os outros me compreendam. Gostamos que as nossas preocupações sejam reconhecidas, mas na relação com os outros facilmente as achamos demasiado exageradas ou então somos negligentes. Não há postura que nos agrade em relação aos filhos. Depois aquela mãe faz assim, a outra faz assado, aquela experimentou isto que é muito bom, mas... no nosso filho, é para esquecer! Na maternidade, assim como nas relações, no trabalho, as receitas são únicas. Nem sempre é passível de se fazer uma grande “refeição“ numa casa alheia.

Depois vem a loucura das dietas, o voltar a estar em forma, tudo isso acontece naturalmente. Quando não há obsessão em relação a nada, tudo parece mais fácil. Quando damos por nós somos um super pacote completo, mães, esposas, com a ingenuidade das crianças e com as responsabilidades de uma dona de casa.

Quando se é uma mãe carinhosa, preocupada e esforçada, isto torna-se a melhor lingerie de todas, a verdadeira beleza daquela mulher, em toda a sua plenitude.

Mas afinal.... eu até consigo fazer tudo o que era suposto, eu sou fantástica. Sim, a mulher é mesmo fantástica quando se reinventa em todos estes papéis, tornando-se cada vez mais completa. Olhamos para trás e já não concebemos a nossa vida vazia, a casa vazia! Uma casa é muito mais cheia quando se ouvem choros, risos ou mesmo as músicas e histórias repetidas da Baby TV :“Quando o Frank se põe a andar, nada o fará atrasar...”. Ou o Henrique que vai comprar coisas à mercearia que nunca existem… mas os bebés gostam e ficam entretidos, e então olhamos para aquele canal como uma dádiva, e damos por nós a acalmar com aquelas músicas, com aquelas histórias. A nossa infância voltou, mas com mais cor! Apresento-te a tua nova família, a tua casa, o teu marido, o teu filho. Ah e o teu marido… garanto-te que a verdadeira paixão, vem quando o vês no papel de pai.

artigo do parceiro: Bárbara Baptista

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