“Tens um mano na tua barriga?”

Iniciativa pretende sensibilizar as grávidas a doarem o sangue do cordão umbilical dos seus recém-nascidos ao banco público de células estaminais

Quando Liliana estava grávida cruzou-se com a pequena Bia no hospital. A menina entrou de rompante pelo quarto da gestante e perguntou-lhe: "Tens um mano na tua barriga?"

 

Aquela pergunta nunca mais lhe saiu da cabeça. Não por ser feita por uma menina loira, de olhos azuis, "com 4 anos de gente", como Liliana diz, mas porque foi feita pela Bia, uma criança com leucemia que precisava de um dador compatível. A mãe da menina esperava outro filho, na esperança que ele pudesse ser o código PIN da Bia. "Mas não foi", conta a blogger.

 

Liliana sentiu naquele momento que podia fazer algo para ajudar esta e outras crianças e lançou no seu blogue uma campanha para sensibilizar as grávidas a doarem as células do cordão umbilical dos seus recém-nascidos ao banco público e células estaminais numa iniciativa chamada, precisamente, Tenho um mano na barriga. "Afinal, qualquer um dos nossos bebés poderia fazer a vez do mano da Bia", diz Liliana.

 

Aconselhada por uma médica amiga, em quem confia "a mil por cento", Liliana tomou conhecimento da importância da preservação das células estaminais, que servem essencialmente para dois grandes grupos de doenças: as genéticas e as neoplasias do sangue ( linfomas e leucemias) e decidiu contribuir para aumentar "até infinitos mil o pool de dadores de um banco de acesso universal para que todos os meninos que um dia precisem tenham um dador disponível".

 

Mãos à obra!

 

O blogue de Liliana foi lançado em 2009, apenas com o intuito de ser um espaço onde pudesse dizer as suas "larachas", como lhe chama, mas ao fim de quatro anos já alcançou quatro milhões de visitas.  E aproveitando essa visibilidade lançou a iniciativa Tenho um mano na barriga.

 

Depois de conhecerem a história do seu encontro com a Bia, os leitores do blogue organizaram uma série de eventos de norte a sul do país e em pouco mais de um ano já conseguiram angariar mais de 800 novos dadores de medula óssea "possíveis de serem o código PIN de uma criança ou de um adulto, que poderia ser da minha família ou da sua", diz Liliana.

 

Casos mais mediáticos, como a situação do pequeno Gustavo, filho de um jogador de futebol, que sobreviveu à leucemia graças a um transplante de medula óssea, têm sido fulcrais para dar a conhecer a doença, as suas implicações e as formas como cada um pode ajudar. Também o caso do pequeno Rodrigo, de três anos, se espalhou pelas redes sociais e criou um movimento de solidariedade gigantesco.

Liliana e mais duas amigas, também elas bloggers dos sites Cocó na fralda e Às nove no meu blog, moveram mundos e fundos para montar uma venda solidária. Em apenas um dia, conseguiram 301 inscrições de possíveis dadores de medula e angariaram quase oito mil euros para ajudar o Rodrigo.

"Quando abrimos o Facebook ou vamos ler um post de algum blogue e que aparece uma fotografia, um rosto, um olhar triste e doente, palavras concretas de uma mãe que sofre, que pede ajuda, a campainha toca. Comigo também é assim, não se pense. O Rodrigo teria sido apenas um Rodrigo, abstracto, um mero nome de uma criança se eu não tivesse dado de caras com a fotografia da sua mãe, jovem e cansada, a amparar-lhe a cabecinha. E foi esta imagem que me fez despertar para a necessidade de contribuir para uma ajuda que, infelizmente, não chegou a tempo", conta Liliana. Rodrigo acabou por falecer no dia 5 de junho.  

Liliana diz que não pretende ser uma Madre Teresa de Calcutá mas acredita que pode fazer a sua parte "para que o Mundo seja um bocadinho melhor", "porque isso não é só tarefa das empresas com ISOs e normas de certificação de qualidade que a atestam. É responsabilidade de cada um de nós", explica.

 

E foi com este sentimento que decidiu tornar a primeira festa de aniversário da sua filha num evento solidário. "Nesse dia (10 de agosto), procuraremos celebrar intimamente com a nossa família e amigos próximos. Mas... Mas eu gostava de marcar esta efeméride de forma inesquecível".

 

Festa de aniversário solidária

O local ainda não está definido mas sabe-se que qualquer pessoa pode participar na festa. "Já temos animação garantida com mágicos, palhaços, gente que irá fazer pinturas faciais, modelagem de balões, escoteiros a ensinar a fazer nós, autores de livros infantis a contarem ao vivo os seus contos, educadores de infância para ajudarem a dinamizar jogos com os meninos que forem à festa e acreditamos que ainda aí virá mais", diz.

 

Em troca, Liliana pede uma prenda para a sua filha: "a inscrição de cada um (ou que tragam um amigo que ainda não esteja inscrito) como dador de medula óssea".

"O processo de inscrição é simples: uma picadinha e já está. Em caso de compatibilidade comprovada o processo dá-se por duas vias: dádiva de sangue periférico ou transplante de medula, esta última sob o efeito de uma anestesia. A meu ver, todo o processo é bastante simples e o fim justifica os meios", diz Liliana.

 

Doação de medula óssea


Existem falsos mitos associados relativamente à impossibilidade de se ser doador, como por exemplo o facto de se ter tatuagens. Os interessados devem esclarecer todas as dúvidas e procurar informação junto de fontes credíveis como por exemplo junto do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), dos Centros de Histocompatibilidade e das equipas do Centro Nacional de Dadores de Células de Medula Óssea, Estaminais ou de Sangue do Cordão (CEDACE).

"O importante é não arranjar desculpas ou justificações infundadas para adiar a inscrição", diz Liliana. Porque qualquer criança ou adulto pode ajudar a salvar uma vida.

Pode acompanhar os preparativos da festa aqui.

 

Rita Afonso

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