"Razões familiares" impedem mulheres portuguesas de voltar a estudar

As mulheres têm “aspirações educativas” mais altas que os homens, mas menos intenção de “voltar a estudar”. A “falta de tempo e disponibilidade por razões familiares” é o principal argumento para não voltar à escola ou fazer um curso. São as conclusões do estudo "Que perceções têm os portugueses sobre o valor da educação?”, divulgadas no âmbito do Dia Internacional da Mulher.
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O primeiro estudo do EDULOG, think tank da Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, que analisou a importância que os portugueses dão à educação, conclui que as mulheres, mais do que os homens, mostram vontade de continuar a estudar. No entanto, são elas quem menos tem a intenção de concretizar esse desejo: 50% dos homens e 60,4% das mulheres não pretendem voltar a estudar. Em maior medida do que os homens (49,5% face a 39,5%), as mulheres argumentam não continuar a estudar “por falta de tempo e disponibilidade por razões familiares”.

«Os resultados não deixam de suscitar alguma curiosidade, sobretudo se tivermos em consideração que são as mulheres que exprimem um maior desejo de ter um grau de escolaridade mais elevado. A descoincidência entre o desejo de ter um grau de escolaridade mais elevado e a colocação em prática de estratégias para o conseguir é mais marcada entre as mulheres», escrevem os autores do estudo “Que perceções têm os portugueses sobre o valor da educação?”

Em termos de escolaridade, são elas quem mais vezes detém um grau do ensino superior (24,1% face a 13,4%). Entre os inquiridos que seguiram a via profissional 32,7% são homens e 25% mulheres. «No entanto, são claramente as mulheres que mais frequentemente seguem os cursos de formação de adultos (15,6% face apenas a 5,5% no caso dos homens)», descreve o estudo.

Num mercado de trabalho caracterizado por qualificações baixas ou medianas, as mulheres, muito mais do que os homens, identificam ter “excesso” de qualificações escolares em relação às exigidas pelo seu trabalho (62% para as mulheres e 38% para os homens). Segundo os investigadores, estas diferenças «sugerem que são as mulheres que menos percecionam verem reconhecidas as suas qualificações pelo mundo do trabalho».

«Este facto não poderá desligar-se dos fenómenos de feminização dos sistemas educativos já salientados pela investigação; isto é, da tendência reconhecida para que hoje sejam as mulheres a desenvolver percursos mais longos de escolarização, apostando no valor desta tendência que se manifesta ao longo dos diferentes níveis de ensino, mas que não tem uma tradução em termos do mesmo grau de eficácia no mercado de trabalho», lê-se no estudo.

Ainda assim, quando regressam aos estudos, um maior número de mulheres, por comparação aos homens, consegue terminar o curso. A taxa de obtenção de um grau superior quando se volta a estudar, depois de um período de interrupção, é mais elevada entre as mulheres (93,3% face a 84,3% nos homens).

Este estudo foi desenvolvido pelo EDULOG – Think Tank da Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, em colaboração com o Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior, tendo sido realizadas 1.201 entrevistas telefónicas, a indivíduos de 18 ou mais anos, de ambos os sexos, residentes em Portugal continental e Ilhas, entre os dias 9 e 27 de março de 2016.

artigo do parceiro: Susana Krauss

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