Cristina Flores: "Os bebés não nascem com botões para desligar o som, nem os umbigos são portas de USB"

Cristina Flores, mãe e enfermeira a tempo inteiro, acompanha adolescentes em situação de risco em bairros sociais. Foi voluntária na associação “Os Francisquinhos”, e é responsável pelo projeto Corações XXL, da Associação Corações com Coroa. Passou ainda pelo projeto “ Clube Barrigas XXL, uma iniciativa da Câmara Municipal de Cascais. Para além de trabalhar no Centro de Saúde da Ajuda, dá cursos de pré e pós parto. Fomos conhecer esta mulher-coragem que nunca se cansa.

FOTO: BabyDi - Fotografia de Recém-nascidos by Diana Vasconcellos e Sá

Quem é a enfermeira Cristina Flores?

Sou uma mulher com garra e com força. E sei que isso vem muito das minhas raízes, dos princípios e dos valores que os meus pais me transmitiram. Vem também da família onde eu fui criada. Não baixamos os braços. Todo o meu núcleo familiar era o de uma família de trabalhadores, de gente que tinha de lutar para ter. E é uma família grande. Aprendemos desde cedo a partilhar. Vivíamos sem consumismos. A melhor roupa usava-se só ao domingo. Houve sempre um quanto-baste que me fez crescer muito, que me deu força para lutar e para conquistar.

É esse espírito familiar que a motiva todos os dias?

Adoro ser mãe. E começo por mãe porque tenho três filhas espetaculares com 28, 27 e 22 anos. Adoro ser mulher e adoro ser enfermeira. Gosto imenso do que faço. Concluí o segundo ano de Medicina e não segui esse curso porque não quis. Adoro o contacto cara-a-cara, o tocar e o ajudar. E isso tem a ver com a empatia. Uma enfermeira que não tem empatia fica muito aquém da profissão. É preciso saber ouvir e ajudar. Porque apoiar uma jovem, uma mulher, é apoiar uma comunidade, um país.

Só não vou atrás de um carro do INEM porque sou crescida e tenho um bocadinho de vergonha
Porque escolheu esta área?

Eu não escolhi esta área, esta área é que veio ter comigo. Terminei o curso de Enfermagem em 1982. Nesse ano iniciei funções na Unidade de Urgência Cirúrgica do Hospital de São José, onde tinha realizado o último estágio do curso. Eu adoro urgência. Dá-me adrenalina… Só não vou atrás de um carro do INEM porque sou crescida e tenho um bocadinho de vergonha. Porque eu ia e parava para ajudar. A minha alcunha no São José era a “Cristina reanimas”, porque eu adorava a área de reanimação. Isto é a parte boa e a parte má, porque não é fácil fazer a catarse de tudo isto. É muito pesado do ponto de vista psicológico. É isso que me leva a concorrer para os Cuidados de Saúde Primários, mas só quando tenho a terceira filha, em 1995. Não entrei logo, só em 1997 é que iniciei funções nessa área.

O que a marcou nesses 18 anos na Urgência no Hospital de São José?

A evacuação de queimados da Escola Secundária do Cartaxo. Houve um incêndio no laboratório de química da escola e havia dezenas de feridos. A evacuação das pessoas de um avião holandês que se incendiou no aeroporto de Faro. Ainda hoje troco mensagens e e-mails com uma passageira, mãe de um menino de 4 anos. Ela vinha ter com o marido a Portugal, e trazia o filho, mas ficou com as mãos e braços totalmente queimados. Não conseguia pegar no filho. Enquanto ela desceu do avião para ser socorrida, eu fiquei com o menino no meu colo, que tinha apenas uma zona lateral da face queimada, tentando acalmá-lo perante a situação fragilizada da mãe. Ficámos com uma ligação espetacular.

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