Medicamentos antipsicóticos podem triplicar o risco de diabetes em crianças

As substâncias ativas quetiapina, aripiprazol e risperidona podem triplicar o risco de uma criança desenvolver diabetes tipo 2 durante o primeiro ano de uso, de acordo com um novo estudo.

Estes poderosos antipsicóticos eram tradicionalmente usados para tratar a esquizofrenia. Contudo, hoje em dia, a maioria das prescrições de antipsicóticos são utilizados para tratar distúrbios de hiperatividade e défice de atenção (DHDA), bipolaridade e distúrbios de humor como a depressão, como indicam investigações anteriores.

 

Os medicamentos antipsicóticos tornam uma criança muito mais propensa a desenvolver diabetes tipo 2 do que os medicamentos geralmente prescritos para estas outras condições psiquiátricas, disse Wayne Ray, diretor da divisão de farmacoepidemiologia da Escola de Medicina da Universidade de Vanderbilt, em Nashville, Estados Unidos da América.

 

«Descobrimos que as crianças que receberam medicamentos antipsicóticos eram três vezes mais propensas a desenvolver diabetes tipo 2», declarou Wayne Ray. «É bem conhecido que os antipsicóticos causam diabetes em adultos, mas até agora a questão não tinha sido investigada em crianças.» Os antipsicóticos parecem aumentar o risco de diabetes, provocando um aumento dramático de peso em crianças e promovendo a resistência à insulina, afirmou o investigador.

 

O crescimento do uso de medicamentos antipsicóticos tem sido particularmente sentida entre as crianças. As prescrições de antipsicóticos aumentaram sete vezes para as crianças nos últimos anos e quase cinco vezes para os adolescentes e jovens adultos com idades entre os 14 e os 20 anos, de acordo com um estudo de 2012 da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Estados Unidos da América.

 

Para o presente estudo, que foi publicado ontem na revista JAMA Psychiatry, os investigadores reviram os registos de cerca de 29 mil crianças e jovens com idades compreendidas entre os 6 e os 24 anos inseridos no programa Tennessee Medicaid, que recentemente começaram a tomar medicamentos antipsicóticos por outras razões que não a esquizofrenia ou psicoses relacionadas.

 

Estas crianças e jovens foram comparadas a mais de 14 mil outros doentes controlo que tinham começado a tomar outros tipos de medicamentos psiquiátricos, incluindo estabilizadores de humor como o lítio, antidepressivos, psicostimulantes como p metilfenidato, medicamentos alternativos para o DHDA como clonidina e guanfacina e ansiolíticos conhecidos como benzodiazepinas.

 

No primeiro ano, os utilizadores de medicamentos antipsicóticos apresentaram um risco triplo de diabetes tipo 2, em comparação com os utilizadores de outros medicamentos psiquiátricos. O risco continuou a aumentar com a dose cumulativa de antipsicóticos e manteve-se elevada durante um ano após os medicamentos terem sido retirados aos doentes.

 

«A diabetes pode desenvolver-se relativamente pouco tempo depois de iniciar o tratamento com estes medicamentos», disse Walter Ray. «Descobrimos que o risco aumenta no primeiro ano de utilização, e é consistente com relatos de casos reportados por vários médicos. O risco pode ter de ser considerado mesmo para períodos de uso relativamente curtos.»

 

«No nosso estudo, não vimos diferença entre os diferentes tipos de medicamentos», afirmou o especialista. «Pode ser um efeito de toda a classe de antipsicóticos.» A maioria dos participantes tomava antipsicóticos «atípicos», também chamados de antipsicóticos de segunda geração.

 

A equipa de investigação de Wayne Ray argumenta que os médicos devem considerar todos os outros tratamentos disponíveis antes de recorrem à prescrição de antipsicóticos. Se as crianças e os jovens têm de começar a tomar antipsicóticos, então os médicos e os pais têm de estar atentos aos primeiros sinais de diabetes. «A monitorização frequente de fatores que conduzem à diabetes deve ser importante, incluindo o peso e a intolerância à glucose», concluiu o líder do estudo.

 

 

Maria João Pratt

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