Ana, a rapariga que viveu presa num corpo de rapaz durante 16 anos

“Eu quero ser Rainha”. Foram as palavras que Ana disse aos pais há cerca de 15 anos numa festa de aniversário. Uma frase que não causaria qualquer tipo de estranheza na família se à nascença não lhe tivesse sido atribuído o sexo masculino.

“Ela nunca disse explicitamente que queria ser menina ou que não queria ter uma pilinha. Mas sempre mostrou que estava desconfortável com o seu corpo e de uma maneira confusa”, relembra Vasco em entrevista ao SAPO Lifestyle sobre os primeiros sinais de que o género sentido pela filha – o feminino* - não correspondia ao género com que nasceu. “Na altura eu e a mãe achámos que se tratava de homossexualidade. Estávamos longe de achar que seria uma transexual*.”

A verbalização do género autoatribuído e sentido pela criança pode acontecer por volta dos dois ou três anos, como também pode ocorrer apenas na idade adulta. Margaria Faria, presidente da AMPLOS, explica que cada caso é único e deve ser analisado com cuidado. O mais importante é que os pais, para além de observarem as manifestações, oiçam a criança.

“As crianças de expressão de género variante ou não-conforme* podem identificar-se com os papéis e expressões do sexo oposto, sem que haja necessariamente um desejo de ser percebido e tratado como pertencendo ao género oposto. As crianças transexuais, para além dessa manifesta e reiterada preferência pelos papéis e expressões do género oposto, podem pedir para serem tratadas por nomes e pronomes característicos desse género sexo oposto. Em alguns casos podem recusar o seu próprio corpo.”

“Na altura eu e a mãe achámos que se tratava de homossexualidade. Estávamos longe de achar que seria uma transexual.”

Ouvir, esclarecer, acompanhar e apoiar. É esta a missão da AMPLOS - Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género – que se define como um grupo de pais que se propõe lutar por uma sociedade mais justa, opondo-se a todas as formas de discriminação.

Atualmente acompanha um núcleo de 18 famílias: 10 famílias de crianças de expressão de género variante ou não-conforme e oito famílias de crianças que revelam uma identidade transexual. Todas têm algo em comum: o desejo de conhecer casos semelhantes ao seu. “Chegam-nos cerca de 15 novos pedidos por ano. Fazemos acolhimentos individuais e em grupo onde damos informação sobre direitos e cuidados disponíveis”, refere.

A família de Vasco é um dos exemplos que anualmente recorre à AMPLOS em busca de respostas. Para este pai, o apoio da associação, intercalado com o acompanhamento psicológico, foi fundamental para a “abordagem positiva” relativamente à melhor solução para a filha. “Sabia que era algo que podia acontecer na vida das pessoas. Mas efetivamente sabia pouco sobre o tema.”

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De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) publicado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), a disforia de género* é a angústia manifestada pelas pessoas que não se identificam com o seu sexo.

“A criança sente um desconforto e um sentimento de inadequação de não se sentir bem no papel que representa ou que os outros lhe exigem que seja apresentado. Este diagnóstico diz respeito a um transtorno psicológico gerador de desconforto com o sexo imposto pelo nascimento”, explica a psicóloga clínica e psicoterapeuta infanto-juvenil Sandra Helena, que faz questão de esclarecer que o acompanhamento psicológico não deve ser encarado como uma obrigatoriedade, podendo em alguns casos nunca ser necessário. No entanto, sempre que a criança ou a família manifeste dificuldade em lidar com os processos do desenvolvimento de qualquer dos elementos que fazem parte desse sistema será importante recorrer à ajuda de especialistas para experienciar de modo mais equilibrado os sentimentos inerentes à situação.

“A procura do psicoterapeuta surge com a incompreensão familiar e social, associadas à intolerância no meio escolar face aos comportamentos das crianças.”

"O médico virou-se para nós e disse ‘já percebi que de facto a Ana é mesmo para avançar com um processo de transexualidade’. Eu virei-me para ele e disse ‘Ana? Mas qual Ana?”.

Aceitação, compreensão e união foram sentimentos que acompanharam a família de Ana durante todo o processo de avaliação psicológica. É com sentido de humor que o pai recorda o momento em que ficou a conhecer o nome de rapariga da filha, uma vez que esta o tinha partilhado primeiro com o seu médico. “Foi muito engraçado porque o médico virou-se para nós e disse ‘já percebi que de facto a Ana é mesmo para avançar com um processo de transexualidade’. Eu virei-me para ele e disse ‘Ana? Mas qual Ana?”.

Aceitação, compreensão e união: o momento em que se começa de novo

Após completar 16 anos, Ana tomou uma decisão: começar o processo de terapia hormonal e dar início à sua transição social*. Nesse ano mudou de escola e adotou o nome que escolheu. Mas devido à Lei da Identidade de Género vigente, foi obrigada a manter, durante cerca de dois anos, no seu Cartão de Cidadão um nome e um género que não eram os seus.

Nos temos do artigo 2º da Lei 7/2011 de 15 de Março, a capacidade para requerer a alteração de nome próprio e sexo no Registo Civil encontra-se vedada aos menores de idade, situação esta que se pretende reverter através da proposta de lei entregue pelo Governo em janeiro na Assembleia da República.

"A minha filha só foi feliz a partir dos 19 enquanto podia ter sido a partir dos 16 anos”.

Para além da diminuição da idade mínima de mudança de nome e género para os 16 anos, o diploma contempla ainda que a decisão de mudança de sexo seja fundamentada apenas pela autodeterminação, sem que seja necessário um relatório médico, como se de uma doença se tratasse.

“O que eu gosto muito na parte desta lei é a idade ser menor porque de facto a Ana estava mais do que convencida da sua verdadeira identidade. A minha filha só foi feliz a partir dos 19 enquanto podia ter sido a partir dos 16 anos”, refere Vasco sobre a atual proposta que também pretende que os menores possam ser tratados pelo género com que se identificam, mesmo antes da mudança legal, nas escolas que frequentam.

Já do lado da AMPLOS, as alterações são aplaudidas a meio gás uma vez que para a associação a proposta de lei ainda seria passível de algumas revisões importantes. “Estamos de acordo, ainda que defendamos que a lei não deveria ter idade legal estipulada. Achamos que esta deverá detalhar os direitos na área da saúde e da educação. Para além da sua garantia na lei, devem ser tomadas as medidas necessárias para que os cuidados de saúde estejam disponíveis, sejam acessíveis e de qualidade.”

Apesar da maioria dos pais de jovens trans* que procuram a AMPLOS não estar em negação e encarar o tema com uma enorme abertura, isso nem sempre quer dizer que o processo de transição não seja doloroso para os pais e familiares mais próximos.

“Na prática as coisas nem sempre são assim tão fáceis. No meu caso, senti dificuldade na adaptação do pronome pessoal, de ele para ela”, confessou o pai de Ana. Mas qual o maior receio dos pais com filhos transgénero*?

“A Ana tem uma personalidade muito forte. Sempre foi uma pessoa muito social".

“Um dos maiores medos é que os tratamentos médicos não corram bem. Também têm muito receio da discriminação e da rejeição familiar”, esclarece Margarida Faria. Relativamente a este assunto, Vasco garante que a filha nunca sofreu na pele o peso da discriminação quer por parte de amigos, familiares ou até mesmo estranhos. No entanto, Sandra Helena adverte para a necessidade de ainda ser necessário "preparar a sociedade para a aceitação do ser humano com as suas diferenças".

Felizmente a história da família de Vasco é um exemplo positivo. “A Ana tem uma personalidade muito forte. Sempre foi uma pessoa muito social e habituou-se desde cedo que nem todas as pessoas iam gostar dela. Havia aqueles rapazes que mandavam bocas na escola, mas sempre teve muita força e gozava com a situação. Aliás, quando assumiu a sua verdadeira identidade, todos achavam que ela era uma rapariga na nova escola.”

Recorde-se que após o processo de terapia hormonal - uma das três fases do tratamento - a reatribuição de sexo só pode ser feita mediante a elaboração de um relatório de diagnóstico de saúde mental feito por um profissional que esteja na lista autorizada pela Ordem dos Médicos.

No caso de Ana, a cirurgia aconteceu pouco tempo após atingir a maioridade e sem qualquer tipo de comparticipação do sistema de saúde da família. O motivo? Por se inserir a mudança de sexo na categoria de procedimentos estéticos. Para o Vasco esta situação não faz sentido. “A transexualidade pode não ser uma doença, mas também não é estética”, refere sobre a cirurgia cuja duração ronda as 24 horas e tem um processo de recuperação demorado.

Com todos os desafios e dificuldades que um processo de transição tem a nível familiar, Vasco não tem dúvidas de uma coisa: o bem-estar da filha sempre esteve em primeiro lugar. “Em termos de felicidade e de relação com os outros, a minha filha transformou-se para muito melhor a seguir à transição.”

Vasco e Ana são nomes fictícios.

* Para saber mais sobre o transtorno de identidade de género, consulte o ABC da disforia de género

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