Adolescentes expostos ao suicídio de um colega estão mais propensos a considerar ou a tentar o suicídio

Novo estudo apoia noção de «contágio do suicídio», especialmente em adolescentes de 12 e 13 anos.

Os adolescentes que tiveram um colega de escola que morreu por suicídio apresentam uma probabilidade elevada de considerarem ou tentarem o suicídio, revela um estudo publicado hoje na revista da Associação Médica Canadiana (CMAJ). Este efeito pode durar dois anos ou mais, o que tem implicações nas estratégias para lidar com o suicídio adolescente.

 

«Descobrimos que a exposição ao suicídio prevê o suicídio», escreve Ian Colman, co-autor do estudo e professor de Epidemiologia da Saúde Mental da Universidade de Ottawa, no Canadá, com Sonja Swanson, co-autora e professora da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos EUA. «Isto é verdade para todas as faixas etárias, apesar de se verificar que o risco de suicídio cresce drasticamente na faixa etária mais jovem, entre os 12 e os 13 anos, onde a taxa de suicídio é, à partida, relativamente baixa».

 

O conceito de que a exposição ao suicídio pode criar pensamentos ou ações suicidas é denominado de «contágio do suicídio».

 

Os investigadores analisaram dados de 22 064 crianças e jovens, com idades compreendidas entre os 12 e os 17 anos, da Sondagem Longitudinal Canadiana. Descobriram que o suicídio de um colega de escola aumenta o risco de suicídio de um jovem, independentemente de o jovem conhecer ou não pessoalmente o falecido. Este risco é particularmente elevado entre os jovens de 12 e 13 anos de idade, que apresentam uma propensão para pensamentos suicidas cinco vezes superior aos dos jovens da mesma idade que não viveram a experiência do suicídio de um colega de escola (15% contra 3%). Nesta faixa etária, 7,5% tentaram o suicídio após o suicídio de um colega de escola em comparação com 1,7% que não foram expostos a esta situação.

 

«A taxa de suicídio é de extrema preocupação para a saúde pública, tanto como preditora de suicídio como da sua carga sobre as pessoas individuais e a sociedade», escrevem os autores. O aparente efeito de «contágio do suicídio» foi menos pronunciado nos adolescentes mais velhos, embora os jovens de 14 e 15 anos expostos ao suicídio ainda eram quase três vezes mais propensos a ter pensamentos suicidas e os da faixa etária dos 16 aos 17 anos tinham duas vezes mais probabilidade de terem este tipo de pensamentos do que os jovens da mesma idade não expostos.

 

Por volta dos 16 e dos 17 anos, 24% dos adolescentes – um em cada quatro – teve um colega de escola que se suicidou e 20% conheciam pessoalmente alguém que se suicídio.

 

«Tendo em conta que esta exposição não é rara e parece estar fortemente relacionada com resultados da taxa de suicídio, uma maior compreensão desta associação tem o potencial de ajudar na prevenção de comportamentos suicidas na adolescência», escrevem os autores.

 

São necessárias estratégias mais amplas e duradouras

«Os nossos resultados sugerem intervenções escolares mais alargadas do que as estratégias atualmente existente que estão direcionadas apenas para quem conhecia pessoalmente o falecido, sugerindo que «tais intervenções são especialmente importantes no início da adolescência, o que implica que as escolas deverão ter em conta o risco acrescido de suicídio no mínimo dois anos após um acontecimento desta natureza», concluem os autores.

 

Num comentário relacionado, India Bohanna, investigadora da Escola de Saúde Pública da Universidade James Cook, na Austrália, afirma que este estudo «fornece evidências convincentes de que, entre os jovens, a exposição ao suicídio é um fator de risco para futuros comportamentos suicidas. Isto é extremamente importante porque nos diz que todos os jovens que estão expostos ao suicídio deverão ser tidos em consideração quando se desenvolvem estratégias de intervenção pós-traumáticas».

 

India Bohanna reitera que a adoção de estratégias para limitar o risco de contágio do suicídio é crítica. «A noção de que o suicídio é contagioso sempre foi controversa por várias razões; porém, este estudo importante deve dissipar muitas, se não todas, as dúvidas que existem sobre este assunto. É agora necessário um esforço unificado e concertado direcionado para o desenvolvimento de estratégias, baseadas na evidência, de intervenção pós-traumática. Precisamos saber o que funciona na redução do risco de contágio e porquê».

 

 

Maria João Pratt

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