Que grande gatafunhada…. Com essa letra não percebo nada

Desde tenra idade vemos as crianças a pegarem em lápis e canetas e a começarem a rabiscar… no papel, nos documentos lá de casa e até mesmo nas paredes. De um modo simplista, esta tarefa parece inata, para todas as crianças. Este texto serve para refletir um pouco sobre a complexidade da escrita manual, e também para alertar que nem sempre uma letra feia é apenas isso.

A Associação Americana de Terapia Ocupacional, descreveu a escrita manual como um complexo processo de gestão de linguagem escrita, que implica a coordenação dos olhos, braços, mãos, preensão do lápis, formação de letras e postura corporal. O desenvolvimento da escrita de uma criança pode fornecer pistas para problemas de desenvolvimento. A avaliação escolar da criança é feita principalmente pelo trabalho escrito produzido, pelo que alterações na letra manuscrita podem prejudicar o desempenho académico.

É frequente vermos carinhas felizes, autocolantes nos cadernos bonitos e bem apresentados. O elogio ao produto final manuscrito, reforça a noção de competência, antecipa um rendimento académico mais favorável, e uma vivência mais tranquila naquilo que é a tarefa diária, repetitiva da criança.

Vamos agora recordar aquele menino que tem os cadernos rasurados, folhas rasgadas de tanto apagar, letras que de tão carregadas fazem relevo no verso da folha, como se de letras a 3D se tratassem… se pensarmos no esforço que as crianças com dificuldades na escrita manual dedicam a cumprir as tarefas que lhes pedem, podemos pensar também que energeticamente se esgotam a tentar fazer bem… esse menino não tem a recompensa, não tem a carinha feliz no caderno e também não a espelha no rosto. Pergunto se conseguimos pensar, nas vezes que lhe foi pedido para apagar e fazer de novo, apagar e fazer de novo…

Podemos também pensar naquela menina que até consegue fazer uma letra bonitinha, mas que demora tanto tempo a fazer o texto, que nunca acaba a horas e fica no intervalo sentada na mesma cadeira, frente ao mesmo texto… com letras, que apesar de bonitinhas, são grandes e muito afastadas… já para não falar da forma esquisita com que pega no lápis e se senta. Também essa menina, energeticamente se esgota neste processo de formar letras, podendo ficar menos disponível para outras tarefas escolares… como brincar no intervalo com os amigos.

Estes dois casos simples, são muito frequentes… e passam despercebidos não só na comunidade académica, mas também na comunidade clínica. É muito importante falar da escrita manual como um processo além de motor… As letras ganham forma e são representadas cerebralmente antes de ganharem vida no papel.

O processo de escrita manual começa muito antes de se pegar no lápis. Na principal tarefa de ser criança, brincar, as crianças desenvolvem os padrões pré-escrita. Quando brincam com os carrinhos e fazem movimentos direcionais, quando pintam com os dedos… quando fazem linhas e formas com plasticina… todo este mundo de brincar é mundo de aprender.

A escrita manual envolve uma dança entre um lápis e uma mão… por vezes parece que essa mão é na verdade um ‘pé de chumbo’ sem queda para a dança… é uma mão ora muito leve, ora muito pesada, por vezes rápida outras tantas vezes lenta… mais estranho ainda é quando essa mão fica esquisita, e em vez de pegar no lápis com a tríade típica, pega com quatro dedos, no lápis fica entrelaçada … e lá vem a gatafunhada.

É fácil avaliar a qualidade da escrita, percebemos se a letra é bonita ou feia. Fatores como espaçamento entre letras, respeito pelos limites da folha, proporção entre maiúsculas e minúsculas, são fácies de listar e avaliar.

A dificuldade prende-se com os mecanismos que podem promovem os desafios na escrita manual. Discriminação tátil pobre, pode originar dificuldade em ajustar o lápis na mão de modo a realizar uma correta preensão; coordenação bilateral pobre origina dificuldades em estabilizar o papel com a mão não dominante enquanto se faz uma cópia; diminuição no controlo motor, facilita que as crianças deitem a cabeça na mesa enquanto escrevem; modulação sensorial pobre, faz com que as crianças se irritem com determinadas tarefas sensoriais da escrita. Estes são apenas alguns dos fatores que influenciam a qualidade da escrita, comprometendo de forma significativa o desempenho académico destas crianças.

A urgência em pedir que as crianças escrevam cada vez mais cedo, iniciando a letra de imprensa, antes da letra manuscrita, criará ainda mais barreiras, às crianças que já têm dificuldades neste processo.

A todos os adultos que inocentemente acreditam que a repetição leva à perfeição, aqui fica o alerta. Escrever à mão, pode ser para algumas crianças um tormento, e é responsabilidade dos educadores/professores e pais estarem atentos às dificuldades suprarreferidas por forma a encaminharem a criança para uma avaliação especializada nesta área.

Seja com letra de médico ou professor, todas as crianças gostam de ter sucesso, de agradar… é muito importante avaliar os processos inerentes à escrita manual, não ignorando a complexidade deste ato ‘simples’. Nenhuma criança deverá ser penalizada, porque a sua letra é uma gatafunhada.

Mafalda Correia
Terapeuta Ocupacional
Terapeuta Familiar

mafalda.correia@pin.com.pt

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