O outro lado do espelho

A autoestima e a perturbação de hiperatividade e défice atenção

As crianças com Perturbação de Hiperatividade e Défice Atenção e (adiante PHDA) são conhecidas por não pararem quietas (principalmente nos momentos em que é mais preciso), por terem sempre a cabeça no ar e não prestarem atenção ao que é importante. Com frequência, são também muito impulsivas, agindo precipitadamente e sem pensar nas consequências dos seus atos, o que acaba por ter repercussões negativas nos outros e neles próprios. Algumas destas crianças têm uma perceção negativa sobre si próprios e a sua autoestima é muito baixa, preocupando pais e professores. Outras nem por isso, até parece o contrário! Nestes casos, pais e professores descrevem-nos como crianças pouco empenhadas, impertinentes ou insolentes, arrogantes e pouco preocupadas com a opinião/perceção dos outros; são descritas como parecendo ter “o rei na barriga” e como fossem melhores do que os outros.

Realmente parece ser a impressão que se tem à primeira vista! Parecem estar sempre certos, enquanto os outros estão obviamente sempre errados… quando erram, é porque alguém se explicou mal ou porque aquela regra não era bem assim… parece existir sempre uma desculpa que, por norma, não está relacionada com eles! Com as notas escolares sucede algo semelhante! O professor é que não disse a matéria que ia sair no teste ou enganou-se a dizê-la… ou ainda, quando falou desse assunto, a criança, por algum motivo, não estava lá… Em casa também há justificações (a seu ver) plausíveis para um resultado fraco. O barulho que os pais ou os irmãos fizeram na véspera do teste impediu toda e qualquer a capacidade de concentração (da reduzida que têm…)! Há sempre uma explicação! Mas em que esta jamais está associada a um erro seu mas sim a alguém ou algo alheio a si. A sensação com que se fica na interação com estas crianças é que parecem ter uma imagem de si que é de uma perfeição inabalável. Curioso é também ver que que são, muitas vezes, os primeiros a mostrar aos outros quando estão enganados ou errados.

Porque será tão difícil admitir os seus erros? Como é que parecem continuar com uma perceção de si próprias tão positiva quando se depararam com respostas tão depreciativas por parte dos outros e com desempenhos fracos?... Não seria até de esperar que fossem mais “inseguros”?… Estas são questões que pais e professores colocam muitas. São também este tipo de atitudes que faz com que pais professores tenham também, muitas vezes, comportamentos demasiado reativos, exacerbados e até desajustados.

A verdade é que esta postura é apenas uma capa protetora que estas crianças colocam para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia e as reações negativas dos outros; é no fundo, uma consequência do impacto do seu comportamento mais agitado, impulsivo e desatento, que aos olhos dos outros são considerados desajustados, incómodos e perturbadores. Exatamente por lidarem com frequência com situações de insucesso ou com resultados que não correspondem ao seu esforço ou intenções, têm tendência para “ignorar” os seus infortúnios; este mecanismo pode ser entendido como uma estratégia adaptativa para conseguirem manter-se a “funcionar” e desempenhar as tarefas quotidianas que estão a ser cargo. Por detrás desta perceção sobrevalorizada ou chamado autoconceito “ilusório”, está uma autoestima muito fragilizada, que os pode colocar em inúmeras situações de risco não só emocional mas também social e escolar.

A tendência natural por parte dos adultos é confrontá-los com os seus erros e atitudes e interpretá-las como irresponsabilidade e imaturidade. Contudo, ao contrário do propósito pretendido do adulto em “chamá-lo à razão”, vai acentuar esta postura, contribuindo para a sua persistência ao longo do tempo e para que se torne mais desadaptativa. Tende também a ter implicações negativas no investimento e motivação para alterar alguns comportamentos e ultrapassar as suas dificuldades.

Para ajudar estas crianças e adolescentes, é fundamental que pais e professores, em primeiro lugar, compreendam as dificuldades que estão por detrás dos comportamentos que apresentam e que, muitas vezes, são decorrentes da sua condição de base – a PHDA. Depois de compreender, é necessário empatizar; e empatizar é ser capaz de ir para além da compreensão, é ser capaz de se colocar no lugar do outro e percecionar como o outro se sente. É importante terem consciência que é difícil ter de fazer esforço extra para corresponder com as expectativas dos outros (e com as suas) e essencial serem capazes de identificar e especificar as características positivas que estas crianças têm e as áreas de desempenho em que são competentes. Obviamente que empatizar e compreender não significa desculpabilizar e ser permissivo. É imprescindível apresentar-lhes as consequências das suas escolhas, atitudes e resultados, no entanto através de um espírito cooperativo de resolução de problemas, de críticas construtivas sem juízos de valor e generalizações, como por exemplo: “eu já sabia que isto ia acabar assim” ou “és sempre a mesma coisa”. É importante valorizar cada pequeno ato, cada esforço mesmo que não o seja “perfeito”! Afinal o que é a perfeição para uns não o é para outro… É essencial fazer um esforço para não apontar e focar apenas as falhas nem no produto final! Afinal, se a criança tem uma PHDA sabemos que o esforço não é, muitas vezes, diretamente proporcional ao resultado… Acima de tudo, é verdadeiramente importante que pais e professores tenham sempre presente que são crianças com imensas qualidades (mesmo que estas não sejam em áreas tradicionalmente apreciadas), com imensos talentos que normalmente não são tão visíveis e valorizados e que acabam por sofrer em silêncio.

Mónica Serpa Pimentel
Técnica Superior de Educação Especial e Reabilitação & Mestre em Reabilitação Psicomotora
monica.pimentel@pin.com.pt

 

PIN – Progresso Infantil

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