Lidar com uma doença complicada durante a gravidez

O testemunho de um casal que viveu momentos difíceis para salvar a filha

«A nossa filha é uma guerreira», afirmam, sem qualquer pudor, Filipa Avillez e Tiago Jales Tomé, pais de Clara. Apesar do prognóstico pessimista, a bebé desenvolveu-se no útero materno e, depois, ao longo de 40 dias, numa incubadora, envolta em energia positiva que, acreditam os pais, a salvou.

 

«Tinha 25 anos quando me foi diagnosticado lúpus eritematoso sistémico. Apesar de este ser um dos tipos mais graves de lúpus, tive sorte pois aprendi a lidar com a doença e a evitar as suas manifestações. Quando, aos 31 anos, eu e o Tiago decidimos ter um filho, questionei-me se poderia fazê-lo de forma normal, como qualquer outra mulher», recorda a gestora de projetos.

 

«Tanto as minhas pesquisas na internet como a opinião médica deram-me uma resposta unânime: A gravidez era segura! Engravidei normalmente e, no início, correu tudo sem grandes sobressaltos, apesar de a obstetra revelar sempre um cuidado extra comigo. Às 19 semanas tudo mudou», relembra Filipa Avillez.

 

A má notícia

 

«Durante a ecografia, a técnica suspeitou de umas manchas brancas à volta do coração da bebé e mandou-me de urgência repetir o ecocardiograma fetal que tinha feito recentemente. Aí, confirmou-se o pior. Os meus anticorpos estavam a atacar o coração da bebé a grande velocidade. Estavam a expulsá-la de dentro de mim e ela já tinha um bloqueio auriculoventricular completo», emociona-se.

 

«Já no hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, numa quinta-feira, os médicos foram muito claros. Iam iniciar-me numa terapia de corticoides, a mais agressiva que existe (dextametasona, dosagem máxima, oito miligramas diárias), para tentar travar o ataque dos anticorpos e salvar a nossa filha. No entanto, afirmaram perentoriamente que a bebé não devia chegar com vida ao fim de semana», desabafa Filipa Avillez.

 

Em modo off

 

Os momentos que se seguiram foram particularmente difíceis. «Nunca senti nada parecido. A angústia parecia que me ia engolir nesse dia. Já em casa, o Tiago apertou-me com toda a força do mundo e perguntou-me como é que, sendo nossa filha, fruto do nosso amor, eu podia duvidar que ela iria nascer e bem? Serenei. Já medicada, desliguei os telefones e não abri a porta de casa. Não podia ouvir nada de ninguém para não perder a certeza que o Tiago me tinha dado. Ele é que sabia», recorda, convicta.

 

Vigilância permanente

 

O acompanhamento médico foi uma constante ao longo das semanas que se seguiram. «A gravidez passou a ser altamente vigiada pela equipa do Hospital de Santa Maria onde todas as semanas fazia um ecocardiograma fetal, para avaliar o coração, e uma ecografia, para avaliar o crescimento do feto. Tínhamos de garantir o desenvolvimento até, pelo menos, às 26 semanas, idade mínima segura para o parto, com o máximo de peso possível», relembra Filipa Avillez.

 

«Devido ao bloqueio auriculoventricular, os médicos acreditavam que a bebé ia precisar de um pacemaker à nascença para sobreviver, mas temiam que a implantação do aparelho, devido ao seu baixo peso, pudesse ser fatal. Em família, continuávamos com o nosso mantra. Eu e o Tiago costumávamos dizer que uma dream team como a nossa, com uma claque como a da minha mãe, que foi mais uma vez o meu porto de abrigo nesta viagem, só podia fazer uma bebé espetacular, uma guerreira», acreditavam.

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