Gaguez em contexto escolar: o que pode o professor fazer?

Desde idades precoces, as crianças que gaguejam experienciam os momentos em que é evidenciado o que as distingue dos pares. Através de algumas atitudes e estratégias, o professor pode ter um papel decisivo na gestão destes momentos.

A gaguez pode ter manifestações físicas, observáveis, que muito variam de pessoa para pessoa. O mesmo acontece com o impacto que tem no dia-a-dia da pessoa que gagueja, nos sentimentos como o medo, a frustração, a vergonha. A forma como a pessoa lida com a gaguez pode ser amplamente influenciada pelo meio que a rodeia.

Em contexto escolar, as crianças enfrentam inúmeros desafios na interação com os pares, em sala de aula ou no recreio. Desde idades precoces, as crianças que gaguejam experienciam os momentos em que é evidenciado o que as distingue dos pares. Através de algumas atitudes e estratégias, o professor pode ter um papel decisivo na gestão destes momentos, determinando o bem-estar do aluno, uma vez que é muitas vezes a figura de referência, que mais tempo passa com a criança.

O que pode fazer o professor para ajudar?

Como falar com os pais?

Uma conversa em que o professor dá a sua opinião aos pais é muito importante. Caso a gaguez tenha impacto na escola, a conversa poderá ser um ponto de partida para encontrar uma solução para o problema. Caso contrário, a opinião do professor poderá ser uma forma de eliminar a preocupação dos pais. O professor poderá fornecer informação adicional sobre a gaguez e sugestões para lidar com a situação, como procurar um terapeuta da fala ou ajuda através da APG (Associação Portuguesa de Gagos). Deverá igualmente recolher a perceção dos pais sobre o problema e a forma como a criança lida com a gaguez noutros contextos.

O que fazer quando a criança gagueja em sala de aula?

O professor deve mostrar que tem consciência da gaguez e que a aceita. Poderá auscultar se a criança prefere intervir em sala de aula apenas quando se voluntaria ou se prefere ser chamada a intervir como qualquer outro colega, e se prefere responder no início ou no fim, uma vez que a preocupação pode surgir enquanto a criança espera pela sua vez. Inicialmente, quando o aluno está em fase de adaptação, o professor poderá colocar questões que exigem apenas respostas curta.

Deve falar com toda a turma sobre a gaguez?

O professor deverá consultar a criança nesta questão, uma vez que nem todas estão preparadas para este procedimento. De qualquer forma, deverá informar a turma que todos têm o tempo que necessitam para responder e que devem respeitar a troca de turnos, de forma a reduzir a pressão de tempo.

Como lidar com as provocações por parte da turma?

Algumas situações podem ser eliminadas com a intervenção apenas do professor, outras requerem procedimentos diferentes. Primeiramente, o professor deve lidar com a situação da mesma forma que lida com crianças que não gaguejam e são igualmente alvo de bullying, não desvalorizando as queixas e mostrando compreensão e apoio.

É importante falar com a criança, ajudando-a a entender os motivos das provocações dos colegas e a pensar em possíveis respostas e soluções (o que deverá ser articulado com o terapeuta da fala). Poderá explicar à turma o que é a gaguez (quanto mais conhecimento sobre o problema, menos tendência haverá para haver provocações) e explicando que a questão, em geral, é inaceitável, uma vez que a criança que gagueja não será provavelmente o único alvo de provocações por parte dos pares. Poderá posteriormente tentar “recrutar” as crianças que provocam a criança para seus “aliados” em situações futuras semelhantes, sendo que a maior parte dos alunos deseja a aprovação do professor.

O que pode dizer para incentivar a criança que gagueja a participar mais em sala de aula?

A melhor forma é transmitir à criança a ideia de que que não considera a gaguez um problema para a participação na sala de aula, sendo o conteúdo do discurso o mais importante. O professor deve elogiá-la quando ela participa e dar-lhe oportunidades para falar.

O que fazer relativamente à leitura em voz alta?

Os momentos de leitura em voz alta são muitas vezes um dos principais receios das crianças que gaguejam. O professor pode incentivar a preparação prévia em casa ou pode optar pela leitura em uníssono ou a pares. Não deve deixar de pedir à criança para ler, interrompê-la, ou expô-la perante os colegas, fazendo comentários sobre o tempo que demora a ler, por exemplo.

O que pode fazer para tornar as apresentações orais mais fáceis para a criança?

O professor deve conversar com a criança sobre o que poderá ajudar. Pode questionar sobre a ordem pela qual é chamada a apresentar, sobre oportunidades para praticar previamente, ou sobre o número de pessoas da audiência (só com o professor, com metade da turma…). Deve refletir sobre o facto de que a criança que gagueja irá, possivelmente, necessitar de mais tempo para fazer a apresentação e não deverá ser penalizada na nota por este fator.

Deve lembrar a criança das técnicas aprendidas em terapia da fala?

O professor e a família devem ter consciência de que a mudança é algo muito difícil e que o uso das técnicas fora do contexto terapêutico pode requerer muito tempo e esforço. A vontade da criança relativamente ao uso das técnicas deve ser respeitada, devendo ser lembrada apenas se houver instruções do terapeuta da fala nesse sentido.

O estabelecimento uma equipa formada por todos agentes significativos para o aluno é igualmente importante. A articulação entre família, professor, terapeuta da fala e a própria criança, pode ser preponderante, devendo ser feito um esforço para serem ultrapassados fatores como a falta de tempo (por exemplo, recorrendo ao telefone ou e-mail), uma vez que qualquer ação será melhor que nenhuma.

As experiências na infância podem ser determinantes para a toda a vida e influenciam a forma como a pessoa se perceciona e se relaciona com os outros. O papel da escola é fundamental na construção de uma sociedade informada e cada vez mais inclusiva, aberta à diferença. A gaguez deve ser vista apenas como uma caraterística da criança, como tantas outras, devendo ser eliminados mitos e preconceitos, o mais precocemente possível em contexto escolar.

Ana Rita Santos rita.santos@pin.com.pt

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