As birras nem sempre são más

Por muito que exasperem os pais, há explosões infantis que dão sinais de desenvolvimento e autonomia.

Podem surgir repentinamente, ou serem fruto de um crescendo. Podem ser mais rápidas ou prolongadas no tempo. Nunca são discretas, mas podem ser absolutamente espetaculares e deixarem os adultos, também eles, à beira de um ataque de nervos.

 

Falamos das birras, esses momentos tão temidos em que a criança perde o controlo e entra numa espiral de gritos, choro e fúria. São mais comuns entre os dois e os quatro anos, mas também afetam os mais velhos e podem acontecer, de forma regular, até aos anos da adolescência.

 

 

Questão de frustração

 

A maior parte dos especialistas concorda que uma birra surge como uma resposta – descontrolada, é certo, mas ainda assim uma resposta – da criança à frustração.

 

A explosão acontece quando ela é impedida de mostrar independência ou uma nova capacidade. É evidente que ninguém, em seu perfeito juízo deixará, por exemplo, que uma criança entre numa situação perigosa, por mais independente que ela se sinta ou birra que faça.

 

O problema é que essa mesma criança não compreende que a situação não é positiva e também não percebe por que razão não a deixam explorar. E aí surge a reação que corresponde à sua imaturidade: a birra.

 

Ela chora, grita, esperneia e dá espetáculo porque ainda não tem outra forma de se exprimir. Para os adultos, mergulhados na tempestade e desejosos de que ela passe, pode ser difícil perceber que a birra é, no final de contas, um sinal do desenvolvimento e autonomia crescente da criança.

 

Ou seja, numa determinada fase, as temidas birras não são um sinal de que algo de errado se passa. Antes pelo contrário. Porém, se se prolongam no tempo, em especial se a criança não mostra indícios de que começa a conseguir controlar-se, pode ser necessário avaliar o que se passa.

 

 

Sinais de tempestade

 

Existem crianças mais birrentas do que outras. E existem circunstâncias que motivam mais facilmente este tipo de descontrolo emocional. São elas:

 

• A idade = Quanto mais novas, mais propensas a deixarem que a birra se prolongue no tempo;

 

• O cansaço = Uma criança fatigada perde capacidade de discernimento e é mais atreita a birras;

 

• O stresse = Se está pressionada por qualquer motivo – e, por vezes, essa pressão é reflexo da dos pais – a birra pode aparecer como forma de protesto;

 

• Problemas físicos, mentais e/ou emocionais = As crianças que têm de enfrentar estas desvantagens frustram-se mais facilmente que as outras.

 

 

Como reagir?

 

Se a criança está a fazer birra, é muito pouco produtivo que os adultos a façam também. Mas isso acontece frequentemente, quando pai e mãe se exasperam, gritam e parecem regredir à idade dos filhos.

 

À partida, e mesmo antes de a birra começar, uma boa estratégia é procurar evitar situações que a despoletem. Por exemplo, se a criança está cansada ou com fome, fazer com que se mantenha comportada ou quieta pode ser uma missão complicada. Então, por que não pô-la a dormir ou alimentá-la antes que o pior aconteça?

 

Se a birra começou mesmo, e por muito difícil que pareça, a melhor maneira de lidar com ela é dar-lhe pouca importância. Ignorar as manifestações exuberantes da criança é mesmo o melhor a fazer.

 

Ignorar a birra pode significar muitas coisas, dependendo da idade e maturidade da criança e também das circunstâncias. Desde abraçá-la e evitar que esperneie e se magoe (no caso das mais novas) até levá-la para o quarto e fazê-la ficar sozinha até que se acalme, existem inúmeras opções à disposição dos adultos. O que não deve acontecer é os adultos perderem, também eles, o controlo ou dar à criança o que ela quer.

 

Com esta atitude, firme mas serena, demonstramos-lhe duas coisas: primeiro que as explosões de génio não são método para resolver os problemas e, segundo, que os adultos não vão ser levados a fazer o que a criança deseja.

 

Mais cedo ou mais cedo ela vai perceber que as birras não são ferramentas aceitáveis nem aceites para viver em família e em sociedade. E vai procurar outros métodos para se relacionar com ela mesma e com os outros.

 

 

Maria Cristina Rodrigues

artigo do parceiro: Maria Cristina Rodrigues

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