Mesmo com muita higiene, as infeções urinárias nos bebés são frequentes

Quem o garante é a médica Sofia Deuchande, nefrologista pediátrica do Hospital de Cascais. Estivemos à conversa com esta especialista para esclarecer algumas dúvidas frequentes sobre os cuidados renais na infância.

Quais são as complicações nefrológicas mais comuns no bebé?

Na Nefrologia, as principais doenças nos bebés até aos 2 e 3 anos são a infeção urinária e as dilatações ou alterações das vias urinárias com ou sem diagnóstico pré-natal. Estas últimas são mais raras.

A que sinais é que os pais devem estar atentos? 

As infeções urinárias podem originar febre, irritabilidade, pouco ganho de peso, urina com cheiro fétido, escura ou avermelhada, vómitos, falta de apetite. Nas crianças mais velhas, que já se sabem expressar, a dor abdominal e lombar também é comum. Por outro lado as dilatações e alterações das vias urinárias, habitualmente congénitas, são detetadas ainda nas ecografias pré-natais e não costumam apresentar sintomas (exceto em situações mais graves).

Deve-se ajudar a criança de forma não coerciva a ir ao bacio para treinar a largada das fraldas e urinar, mas sem a obrigar e respeitando sempre o seu grau de desenvolvimento
Quando é que a perda involuntária  de urina deve ser vista como um problema?

A enurese define-se como a perda involuntária de urina durante o sono a partir de uma idade em que já seria de esperar a perceção de bexiga cheia e o controlo voluntário da micção, o que acontece pelos 5 anos de idade. Logo, só a partir dessa idade é que se pode considerar uma patologia. Antes disso não, porque é normal fazer chichi na fralda.

Como é que se pode ensinar uma criança antes dos três anos a deixar a fralda?

Sobretudo deve-se ajudar a criança de forma não coerciva a ir ao bacio para treinar a largada das fraldas, mas sem a obrigar e respeitando sempre o seu grau de desenvolvimento.

Um bebé que urina pouco ou que urina muitas vezes pode ter uma doença?

Se os pais do bebé notarem que o seu bebé, previamente saudável, está a urinar menos do que o habitual, molhando apenas uma ou duas fraldas por dia, devem aumentar a sua hidratação, fornecendo o leite nas quantidades necessárias ou, no caso de ter mais do que quatro meses, oferecendo mais água.

Por outro lado, um bebé que urina muito exageradamente, molhando mais de 12 fraldas por dia em grande quantidade, pode ter mamado simplesmente muita água ou leite. Mas isso também pode significar poliúria, ou seja, excesso de produção de urina por perda de grande quantidade de água, que se acompanha de excesso de sede, irritabilidade, desidratação, obstipação, perda de peso ou mau crescimento, que são sintomas de doenças raras mas que se podem manifestar em idades precoces, como a diabetes insípida e a diabetes mellitus.

Algumas vezes, malformações renais e problemas congénitos das vias urinárias podem ter evolução para doença renal crónica, com insuficiência das funções do rim que em certos casos dá diminuição da produção de urina e noutros incapacidade na sua concentração, com perdas renais de água excessiva e poliúria, entre outros problemas.

Nestes casos quais são os tratamentos mais adequados?

A diabetes insípida consiste na incapacidade do rim em reter água, por défice da hormona vasopressina produzida no cérebro (hipófise posterior) que atua nos túbulos renais. Por outro lado, pode existir a vasopressina, mas o problema está no próprio rim, cujos túbulos não respondem à hormona, e assim mantém-se uma perda contínua de água excessiva. Na primeira situação trata-se com a hormona análoga, a desmopressina corrigindo a situação; a segunda situação, de causa renal, exige mais tratamentos e acompanhamento em Nefrologia. Em ambas as situações deve sempre manter-se uma boa hidratação do bebé.

A diabetes mellitus é uma doença crónica provocada por um défice de insulina, que se manifesta por uma elevação muito grande de glicose no sangue, que também se perde na urina, arrastando com ela grandes quantidades de água. Trata-se com injeções de insulina subcutânea, mas é muito rara em bebés.

O tratamento da doença renal crónica, também rara nos bebés, consiste na reposição de substâncias e hormonas e no tratamento das alterações que provoca, como a acidose, a elevação do potássio, a hipertensão, anemia, entre outras. Em alguns casos, a situação clínica do bebé pode exigir terapêuticas de substituição como a diálise ou o transplante renal.

Deve-se aplicar a pasta de água para as assaduras uma a duas vezes ao dia, quando surge irritação, mas não exagerar e não colocar sobre as mucosas
O que pode causar infeções urinárias no bebé?

A infeção urinária com ou sem febre consiste na invasão de bactérias nas vias do trato urinário, através da uretra, podendo ascender até ao rim. São frequentes, porque os bebés não têm continência voluntária das micções e dejeções e usam fraldas, que condicionam um ambiente húmido na pele permitindo a colonização das bactérias com origem no intestino. Não são infeções contagiosas, mas sim por contaminação da própria pele. Por vezes, por muito cuidado e limpeza que haja, acabam por acontecer. Outros fatores são alterações congénitas das vias urinárias, como a hidronefrose e o refluxo vesico-ureteral, que têm tendência a desaparecer com o crescimento e devem ser monitorizados, mas que em idades precoces podem aumentar o risco de infeção.

Que cuidados podem evitar este tipo de doenças?

Deve fazer-se uma boa limpeza da pele na zona de fralda, sempre da frente para trás, evitando a permanência das fraldas sujas durante muito tempo, especialmente as fezes. De preferência evitar os toalhetes húmidos para limpar (só quando se sai de casa) e optar mais pela lavagem com água e por vezes com gel de limpeza. Secar sempre bem a pele, deixando-a limpa e sem produtos químicos.

Deve-se aplicar a pasta de água para as assaduras uma a duas vezes ao dia, quando surge irritação, mas não exagerar e não colocar sobre as mucosas. É preciso alimentar e hidratar bem o bebé e manter vigilância das consultas de Nefrologia e/ou Urologia Pediátricas sempre que for necessário, como por exemplo quando há alterações congénitas renais ou das vias urinárias.

As explicações são da médica Sofia Deuchande, nefrologista pediátrica do Hospital de Cascais.

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