Chamo-me Maria e nasci prematura

No dia em que se alerta para o crescente número de partos prematuros, recuamos no tempo e contamos a história de Maria Lima dos Santos, que há 27 anos nasceu com 27 semanas e 1,100kg. Um caso de sucesso contado em família e a quatro vozes: pela própria, pela mãe, pelo pai e pela avó.
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Estava planeada para fevereiro, mas decidi nascer três meses antes do tempo. Às 27 semanas de gestação, a minha mãe foi de emergência para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, com aquilo que julgava serem cólicas.

“Estava em casa e comecei a ficar com umas dores lancinantes sem me conseguir mexer. Fui diretamente para o hospital, mas saí de lá com um diagnóstico completamente ao lado. Só no dia seguinte, quando lá voltei uma segunda vez, é que perceberam que realmente estava com contrações”, conta a minha mãe, Sílvia, sobre o momento em que descobriu que estava prestes a dar à luz.

Apesar dos esforços médicos, a verdade é que não se conseguiu evitar um parto prematuro. O normal seria que eu tivesse completado as 40 semanas de gestação.

“Estive dois ou três dias ligada às máquinas para evitar que a dilatação se fizesse, mas não foi possível. A partir daí passei por um período assustador. Enquanto mãe, o facto de não saber o que ia acontecer foi terrível”, explica sobre o meu nascimento, que aconteceu antes do previsto devido a uma má formação uterina que dá pelo nome de útero bicorno.

Nasci por volta das 4h da madrugada com apenas 1,100 kg. O meu pai, que na altura só recebeu notícias sobre o meu nascimento às primeiras horas da manhã, revela que a espera foi angustiante.

“Recordo-me que a médica se aproximou de mim e disse: ‘O Sr. teve uma criança muito pequena e tem que pensar que muito dificilmente ela vai vingar’. Isto é algo que nunca se deve dizer a um pai numa altura dessas”, relembra o meu pai, Francisco. Para ele, a primeira vez que me viu marcou a sua vida.

“Quando te vi pela primeira vez fiquei muito assustado. Eras uma bebé tão pequena cheia de tubinhos dentro da incubadora.” Um sentimento partilhado pela minha avó materna, Maria Filomena, que confessa ter ficado em choque da primeira vez que me visitou na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do Hospital de Santa Maria.

“Desatei a tremer por todos os lados. Até os dentes batiam uns nos outros”, recorda. “Eu nunca tinha visto um bebé tão pequenino na minha vida mas sempre rejeitei a hipótese de que tu não irias sobreviver.”

E assim foi. À semelhança do que acontece com outros bebés prematuros, nos meus primeiros dias de vida perdi algum peso chegando aos 950 gramas e precisei de ventilação assistida durante 19 dias. Mas o acompanhamento médico e o leite materno, que era administrado por uma sonda, foram fundamentais para o meu crescimento.

Para além disso, fui submetida a uma série de exames de rotina de forma a diagnosticarem eventuais problemas de saúde. O resultado foi sempre negativo apesar do meu aspeto frágil e escassos centímetros. “Eras tão pequena que as roupas, feitas por medida, mais pareciam roupas de bonecas. Por exemplo, a tua fralda era uma gaze”, explica a minha avó.

Nos meses que se seguiram, o tempo dos meus pais e familiares dividia-se entre casa e hospital na busca de notícias sobre a evolução do meu estado de saúde e uma maior proximidade comigo. “O único contacto físico que tínhamos contigo era fazer-te festinhas apenas com um dedo através das aberturas da incubadora”, conta o meu pai sobre as visitas regulares ao hospital.

Graças ao trabalho da equipa da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do Hospital de Santa Maria fui crescendo de forma saudável e sem qualquer tipo de sequelas. Foram precisos 76 dias de internamento para que atingisse os 2,5 kg e pudesse, finalmente, ir para casa.

“Nunca mais me hei-de esquecer que a primeira vez que te peguei a sério estremeceste toda, foi uma sensação incrível”, recorda-me a minha mãe.

Os prematuros extremos, que tal como eu nascem entre as 24 e as 27 semanas e com pouco peso, podem ficar com sequelas graves, como é o caso de paralisia cerebral, cegueira ou surdez. Mas segundo os familiares mais próximos, a partir do momento em que vim para casa correu tudo de forma normal e sem qualquer complicação.

E não há melhor forma de provar isso mesmo do que poder estar a escrever a história da minha vida, testemunhada pelos olhos daqueles que me viram transformar numa mulher saudável, feliz e, acima de tudo, com muita vontade de viver.

Maria Lima dos Santos é jornalista do SAPO Lifestyle e quis partilhar a sua história no Dia Mundial da Prematuridade

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