As dúvidas da vacinação esclarecidas por um médico

Apesar da vacinação ser amplamente recomendada, a mediatização dos efeitos secundários leva alguns pais a ficarem reticentes quanto à sua realização nos bebés e crianças. Consultámos o médico Viriato Horta, especialista em Medicina Geral e Familiar na Clínica Europa, em Carcavelos, que nos ajudou a desmistificar as dúvidas mais prementes.

Por que motivo os pais devem vacinar os filhos desde bebés?

As vacinas são preparados de um ou vários antigénios de determinados agentes infeciosos (vírus, bactérias, parasitas…). Os antigénios das vacinas podem ser microrganismos inteiros (mortos ou vivos, mas atenuados) ou fragmentos desses microrganismos (partes da parede celular, moléculas de superfície ou toxinas inativadas). Até hoje tem sido mais fácil produzir vacinas contra vírus (mas não contra todos, como o VIH) do que contra bactérias, mas as maiores dificuldades registam-se na produção de vacinas contra parasitas, como os plasmódios, responsáveis pela malária.

Os antigénios vacinais, quando inoculados no nosso organismo (por via oral, nasal, subcutânea, intradérmica, intramuscular ou outra), atuam sobre o sistema imunitário para estimular a produção de anticorpos contra esses agentes infecciosos, evitando que as pessoas vacinadas venham a ter essas doenças ou fazendo com que adoeçam com menor gravidade quando forem contagiadas por esses agentes.

As vacinas não conferem uma ação protetora imediata, demorando dias ou semanas a produzir os seus efeitos e necessitam, na maioria dos casos, de ser administradas em várias doses separadas, que vão induzindo uma resposta imunitária cada vez mais potente e duradoura, mesmo que os anticorpos deixem de estar presentes na circulação sanguínea e não sejam detetados em análises clínicas (o que pode suceder com as vacinas conjugadas contra a hepatite B e a doença pneumocócica invasiva, que constroem uma “memória imunológica” não mensurável).

De um modo geral deve sempre considerar-se a vacinação dos bebés e crianças como uma estratégia preventiva a longo prazo

Algumas vacinas têm um efeito protetor muito elevado (sarampo, poliomielite…) ou de longa duração (hepatite B, pneumocócica conjugada…), enquanto outras apenas conferem uma proteção parcial e/ou de curta duração (tuberculose, raiva, gripe…), mas não existem vacinas 100% eficazes.

Um efeito “indireto” das vacinas é o da prevenção do cancro, como é o caso da vacina contra o papilomavírus humano (HPV), que protege contra alguns tipos oncogénicos deste vírus, que provocam o aparecimento de lesões do colo do útero, da vagina, da vulva, do ânus e até da cavidade oral, que podem evoluir para o cancro (inclusivamente em homens). Pensa-se que outras doenças oncológicas, como os linfomas, também estejam relacionadas com vírus e por isso possam vir a ser prevenidas por vacinação.

Pode dizer-se que o objetivo primário da vacinação é a prevenção de uma doença em indivíduos ou grupos, o objetivo último é a erradicação de uma doença e o objetivo global é conseguir o máximo de eficácia, isto é, fornecer o máximo de proteção com o mínimo de efeitos secundários e de custos.

Dentro destes princípios, e consoante a realidade de cada país ou região, as vacinas podem integrar programas de vacinação “automáticos” (obrigatórios ou não), com esquemas e calendários que evoluem ao longo do tempo), podem ter indicação médica, numa base individual (rotavírus, hepatite A…), podem ser utilizadas para determinados grupos de risco (a vacina da varicela tem indicação para as crianças com maior risco de ter doença grave e não para a generalidade das crianças, nas quais a doença é benigna e confere imunidade natural), podem ser usadas em circunstâncias especiais (durante surtos ou epidemias, como os da gripe, cólera, febre tifoide…) e são cada vez mais usadas para viagens, dependendo do país de destino e do risco de contágio de cada viajante.

De um modo geral deve sempre considerar-se a vacinação dos bebés e crianças como uma estratégia preventiva a longo prazo e nunca como uma reação momentânea a um caso pontual de doença infeciosa na escola ou a um surto ou epidemia que estejam “na moda”, porque o tempo de resposta às vacinas não é imediato, como sucede com os tratamentos com antibióticos ou com imunoglobulinas.

Porque é que a vacinação se tornou numa questão tão controversa nos últimos anos, sobretudo no que toca a crianças e bebés?

O enorme aumento da esperança média de vida verificado em todo o mundo nos últimos 100 anos foi possível devido a uma série de circunstâncias muito importantes, de entre as quais se pode destacar a redução da pobreza, o aumento da escolaridade, a melhoria do estado nutricional, as medidas higieno-sanitárias, a segurança no trabalho, a vacinação em massa das populações, o tratamento de infeções e de doenças oncológicas, o controle de doenças degenerativas e a oferta alargada de cuidados de saúde (redes públicas e privadas de hospitais, centros de saúde e maternidades, programas de saúde materno-infantil, redes de cuidados continuados, rastreio de doenças…).

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