Pela boca morre o peixe

Quatro filhos?! Então como é que consegue ter esse ar tão feliz?

Há dias, quando eu estava a começar uma formação, introduzi as apresentações iniciais. O meu nome, o meu percurso académico e profissional e depois uma curta passagem pela minha vida pessoal, relatando, como sempre, que tenho quatro filhos. Em 99,9% dos casos, esta informação arranca dos meus interlocutores as mais diversas reações. Ora me dão os parabéns, ora dizem que não “pareço ser mãe”, ora me invadem com perguntas sobre como é o dia-a-dia com quatro crianças pequenas. Mas desta vez foi diferente:

- Quatro filhos?! Então como é que consegue ter esse ar tão feliz?

Esta pergunta, a que respondi graciosamente com o sentido de humor britânico e cáustico que herdei do meu pai, fez-me recordar todas as atrocidades que, ao longo destes anos, tenho ouvido. E das respostas que prontamente me apetece devolver. Não que sejam informações especialmente relevantes para a cultura geral de quem por aqui passa, mas resolvi deixar o registo. Com a esperança de que, pelo menos, alguém se inspire no que não dizer quando conhece alguém com mais filhos do que aqueles que originam a estatística de natalidade portuguesa:

Cenário 1:
- Quatro filhos? Mas como é que fez isso? - Na verdade, eu poderia dizer que sou a virgem Maria da atualidade. Mas tenho de ser franca, pelo que confesso que fui a mais devassa das mulheres, tendo-me entregue aos prazeres da carne que, informam os especialistas, podem dar “nisto” ao não se usar um método contracetivo. Claro que agora posso passar a explicar a posição, o dia e a hora em que concebi cada um dos meus filhos. Tem tempo para isso?

Cenário 2:
- Quatro filhos? Não tem sequer ar de mãe. - Bem sei, bem sei… Mas a verdade é que já tive. Como qualquer mãe, pesei 157 quilos e usei o cabelo seboso sempre preso num rabo-de-cavalo feito com um elástico do saco de fruta. Também usei saias pretas a roçar os calcanhares e um casaco de malha que herdei da minha bisavó. Isto já para não falar das unhas com dejetos escuros que vinham sabe-se lá de onde e do fio de ouro que, pendurado ao pescoço, apresentava o primeiro dente de leite que caiu da boca da minha filha mais velha. Mas entretanto fui ao famoso cirurgião plástico Pintaguy e pedi-lhe para me dar este ar de “não mãe”.

Cenário 3:
- Quatro filhos? Ai, coitada… - É, tenho de confessar que sou uma triste sobrevivente… acordo e adormeço todos os dias a chorar e só me aguento em pé graças aos muitos antidepressivos que tomo a cada refeição. Na verdade, só vou trabalhar para poder ter umas horas longe daquelas criaturas que resolveram sair de mim, fazendo inclusivamente horas extraordinárias com a esperança de, com alguma sorte, as ter já a dormir quando chego a casa. Ando até à procura de alguém que queira ficar com elas. Por acaso não está interessado?

Cenário 4:
- Quatro filhos? Já basta, não? - Por acaso, não. Ainda não se nota, que faço barrigas pequenas, mas neste momento estou novamente grávida. De trigémeos. Eles devem nascer lá para Fevereiro, mas já disse ao meu marido que, chegando ao Verão, começamos novamente nos treinos.

Cenário 5:
- Quatro filhos? Mas não tem televisão em casa? - Não tenho televisão nem nenhum outro equipamento que se ligue à eletricidade, que lá em casa acreditamos que a energia elétrica é a origem de todos os males da Terra. Também não temos contacto com o mundo exterior, a não ser uma vez por mês, quando procuramos uma vítima para as nossas seitas sanguinárias. Olhe, por falar nisso, pode acompanhar-me a minha casa?

Alda Benamor 

artigo do parceiro: Susana Krauss

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